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sábado, 23 de fevereiro de 2019

Casca da claridade


        


Se tirar da claridade
a sua casca
surgem as palavras
que escapam do outono
quando não adestradas


Pois os poemas são orações
para adormecer as crianças
e lembrar aos homens
que as tardes
são como canções breves


Os poemas são pássaros
de claridade
que carregamos
nos bolsos da alma

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Horizontes distantes



E com as mãos encharcadas                      
de horizontes distantes
eu sigo como por instinto
a ordem muda dos signos

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Mar adentro



Como procuração trouxe o mar
para as grandes estiagens 
que viriam
e por isso para sonhar
tenho barcos, enseadas
As tardes abrasantes dos
primeiros dias

Como procuração tenho o mar
que me segue à minha revelia




domingo, 17 de fevereiro de 2019

País inventado


Um dia sairemos na noite
os versos serão plantas abertas
os passos, claros caminhos
e com a visão dos meninos
deitaremos sobre um grande
país inventado

Sairemos na noite
entre  violinos
e nossos sonhos e 
pergaminhos
serão refeitos
num pátio
afagado de sol

sábado, 16 de fevereiro de 2019

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Sinfonias de vento





Do mar
esses búzios
onde dentro o mar ditava
sua sinfonia de águas
e muitos ventos 
e remos
e remadores atentos
aos seus cantos
e ciladas

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O que fica do amor





Se há algo que
fica do  amor
e seus escombros
são os vagos
simulacros
que inventamos
Pois o amor
com seu grande
oceano
Não se vai
como um barco
abandonado
retorna
e cobra seu legado
e nos joga sobre o mar
e seus costados

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Remadores

Remavam com os braços
das águas
pela tez dos ventos
com os músculos do tempo
e das lembranças
Remavam porque esta era a saga
a ser vencida
e iam esculpidos pelo nada
a fazer a jornada
das vidas vividas

Remavam porque remar
era nascer
Até que na foz do horizonte
já não se perceberam barcos
mas pássaros já capazes
de ganhar a imensidão

Então se foram pelo azul
em campo aberto
e se não fossem pássaros
diria que eram um homem
e uma mulher

Diria que voavam para o amanhecer
de si mesmos´

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Gaivotas


Do céu as gaivotas nascem
chegam das grandes migrações
a rastrear peixes e mares
que não as percebem sagazes
Do céu observam tudo
em regresso de marinas
de outros mundos
sob o afago
da imensidão azul
que se alastra
Sobre o mar planam leves
enquanto os pescadores se debatem
com seus versos tarrafas
e cansaços

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Quando eu envelhecer


                                    


Quando eu envelhecer
e os versos forem só minha pousada
já não andarei na terra para lutas
mas para plantar  palavras
Quando envelhecer
guardarei teu rosto
que é o navio da minha alma
entre as samambaias do tempo
que o tempo também tem safras
onde colho meus poemas
que crescem a cada estação
assim como te colho
a cada dia que passa
nas terras do coração

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Enseada


Eu a despi pouco a pouco
uma mulher tão linda
que tinha o gosto das águas
Nos olhos as luzes do porto
nos seios toda suada pelo
alvoroço e o abandono
chamava-me de  meu amor
e o mar era nossa enseada

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Sob o brilho da lua


Que posso mais eu querer
o rei que deixou-te nua?
A noite traz labaredas
que ponho nos meus afagos
O amor é um rio doce
que  me abres em teu  corpo
E tudo em torno é silêncio
menos o brilho da lua
que testemunha teus seios
só para mim apontados
enquanto teus beijos me levam
para um país encantado

Veleiro passageiro

Este navio não segue o curso
de um rio.
Enroscado nas redes
que o enredam
não se inventa de outra
forma
E não ousa pensar-se
nem como um veleiro
passageiro.
No descampado mar
que o acolhe, não percebe
que é a si mesmo que estorna
ao afogar-se no ocaso
do que é apenas ensaio
mas que pensa ser destino

sábado, 19 de janeiro de 2019

Agosto

Agosto se despede
com as águas das enxurradas
nas ruas eu jogo as tarrafas
nos horizontes sem fim

Qual veleiros

Aqui onde  nasce o mar
nunca chega teus olhos
de mim para sempre distantes
qual veleiros no horizonte

domingo, 6 de janeiro de 2019

Comensal das águas



Então foi do mar que me veio as palavras 
e eu que era um menino de vento
a seguir  barcos e enseadas. 
tornei-me um  comensal das águas

sábado, 5 de janeiro de 2019

O poema de água



             

Não que fosse do mar
a tez da tua pele
Os mapas para te achar
perderam-se pelas estradas
não as reais pedra ou água
ou das almas velejadas

O mapa para te achar
perdeu-se nessas ruelas
na argila do teu silêncio
distinto do oceano
e tudo o que vivemos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Clara noite




Na clara noite dos barcos       
e de exauridas marinas
eu colho seus desamparos
com as mãos repletas de rimas

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Reis magos


Levavam a mirra
para o que ainda nasceria
com a terra sob os pés
e águas diluvianas próximas
Dentro do corredor da noite
levavam nas mãos
a palha dos anos
o rosto crucificado
de um Deus deposto
Não fosse a ordem
que os fazia caminhar
pelo deserto
seriam outros
Não guardariam em si
as dunas silenciosas
da imensidão

domingo, 23 de dezembro de 2018

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O Poema de areia






Vejo em teu rosto
uma integridade tão bela
que a mim me pergunto
se não o guardarei para sempre
pelas estações da terra

Queria beijar-te
andar junto contigo
correr pelo corredor da noite
E contar-te que fui um menino
de vento
e que já te amava
mesmo antes de amar os navios
já te amava, quando tudo ainda
era o perfume da possibilidade
e a areia do amor
escorria por nossas mãos
nas tardes abertas
pelo sentimento de saber
que o amor estava ao nosso alcance
como os navios,a poesia e os carnavais

Só o que havia


era só o que havia
os adereços falavam
e eu catava o silêncio
das hastes da madrugada

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

NO PAÍS DOS ESTALEIROS

  No País dos estaleiros

                        Editora Kazuá - São Paulo

                                     Editorakazua@gmail.com


               Os poemas deste Blog em sua grande maioria encontram-se no livro de Francisco Orban "No País dos estaleiros", que recebeu Menção Honrosa da União Brasileira de Escritores- 2018 














"Grande poeta do mar e grande poeta lírico, além do mestre do poema curto , bem como da forma originada no romance viejo ibérico, Francisco Orban faz parte do que podemos chamar de vertente lírico elegíaca da poesia brasileira contemporânea.
 ( Alexei Bueno)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dezembros

Dezembro se esvai aqui
nas águas e enxurradas
nas ruas eu jogo as tarrafas
nos horizontes sem fim

Embate com o tempo


E tudo é o embate com o tempo
no qual pouco pernoitamos  
como breves comensais
de seus precários outonos

escrita no chão

E tudo tem um começo
até a palavra exata
com que escrevo no chão
o teor da imensidão

Convivência

Convivi muito com o mar
e depois nos apartamos

dos pescadores

O mar é só a invenção
de pescadores incautos
que jogam os anzóis vazios
nos alagados do ocaso

Poema das ruas

E é  bom estar nas ruas
no esteio de uma aventura
e os passos que aqui invento
foram arados no vento

Silêncio do mundo

Ao grande silêncio do mundo
eu contraponho a palavra
e ela sempre me refaz
nos estaleiros da alma

Nação de palavras

Construí uma nação
com a multidão de palavras
mas agora vago incerto
na imensidão do nada

Quanto mar

Quanto de mar nessa palavra
que nos revela  horizontes
quanto caminho a andar
em seus vales e andaimes

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Signos



E com as mãos encharcadas                      
de horizontes distantes
eu sigo como por extinto
a ordem muda dos signos

Se fosse hoje




Se fosse hoje eu beijaria teus olhos, mas assim não foi e não mais será, e nem a estrela que sigo com a alma dos pescadores me indica o caminho de volta. E não há como te dizer "meu amor", porque o amor é uma ponte interrompida pela noite e pela multidão de horas. Desce um grão de mágoa dos nossos olhares desarrumados, e árduos são os caminhos dos caçadores da estrela, porque se fosse hoje eu beijaria teus olhos, mas assim não foi e não mais será...

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Algazarra

Cresci dentro da algazarra
só entre pontes
Impactado pelo amor
e o desamor das palavras
Sem menos que antes
ou cercas de arames
Sereno diante do vento
da noite
a sussurrar-me o universo 
errante

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Mãos crispadas





Nessa cidade extorquida                             
onde o tempo nunca passa
eu trago as mãos crispadas
de suas vidas caladas

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

hastes da madrugada

Apenas acesso o encanto
que traz-me toda palavra
colhendo-as dia após dia 
nas hastes da madrugada

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

de mãos dadas

Teu rosto restou-me dos dias
em que muito nos amamos
pisando com cuidado
os seus precários andaimes

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Barcos ao acaso

Trago no coração
o sonho dos barcos ao acaso
e assim o mar me dispensa 
de sagas e honorários  

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Conselho na noite






Pegue um pedaço da noite
e com ela faça um verso
As cidades nascerão
de dentro das palavras

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Guardar







Todo mundo deveria guardar um poema de amor Principalmente se lhe for endereçado. Mais ainda se o poema guarda as coisas dispersadas pelo nada, os portos onde o amor não achou pouso.As vidas apartadas por tão pouco. Porque o amor é a única enseada que buscamos. E as vezes mal chegamos já partimos

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O grande silêncio do mundo

Ao grande silêncio do mundo
eu contraponho a palavra
e ela sempre refaz-se
nos estaleiros da alma

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Pernoite

meus barcos são as palavras
com que pernoito em mim mesmo
até que o dia renasça
dessa noite e seu avesso

visão dos meninos

E ao divagar sem mais chão
resgato a visão dos meninos
que com tão poucos caminhos 
refazem-se com a imensidão

O que dizer?

Agora que os barcos da noite
se desgarraram do cais
o que dizer aos que sonham
no emaranhado da paz 

Para mim

Guardo para mim o silêncio
e faço  dele jangadas
Eu por tão pouco e por nada
guardei das palavras
as almas

Enredo

Os navios me mantêm 
e em seus caminhos me enredo
Só pego as   rédeas da vida
quando navego no incerto

Quebração das horas

Me atenho ao sentido do mundo
sem nunca alcançar sua orla
e remo com as palavras
pela  quebração das horas

Se tudo não se acertar

Se tudo não se acertar
seremos cantores  mudos
mas quem nos alforriará 
de sonhadores no mundo?

Vales e andaimes

Quanto de mar nessa palavra
que nos revela  horizontes
quanto caminho a andar
em seus vales e andaimes

sábado, 25 de agosto de 2018

Arresto

A vida faz sempre  o arresto
das coisas fora de medida
como os telhados dessas tardes
destampados pelos dias

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Barcos da noite



Agora que os barcos da noite
se desgarraram do cais
o que dizer aos que sonham
no emaranhado da paz?


domingo, 29 de julho de 2018

Escambo






Como os veleiros se foram
levando consigo meus sonhos
se já foram um dia o estuário
de minha cota de danos?

Como se foram no vento
levando meus pensamentos
se com os poemas e o mar
eu tinha uma forma de escambo?

terça-feira, 3 de julho de 2018

Tarrafas





Há muito que o mar me trouxe
como pele suas algas
Os ventos batem afoitos
nos cascalhos do meu rosto
Movido por um deus mudo
sigo atento pelas dunas
do areal que ficou
do que um dia foi só água
Há muito que o mar deixou-me
como saga seus navios
e suas escunas brancas
com as tarrafas da esperança
Das coisas do mar e do mundo
eu sou tecelão e causa
catando búzios do mar
como acordes espalhados
neste areal de silêncio
onde estrelas fazem
pausas