Não decline dos anjos
se não estes mesmos
não zelarão mais por teu sono
quando estiveres despojada
no colo da madrugada
Os mesmos inúteis anjos
que guardam os horários
do mundo
e tentam te imunizar
dos inventários dos sonhos
Não decline dos anjos
se não estes mesmos
não zelarão mais por teu sono
quando estiveres despojada
no colo da madrugada
Os mesmos inúteis anjos
que guardam os horários
do mundo
e tentam te imunizar
dos inventários dos sonhos
Prometo descumprir Fevereiro
se os acasos me deixarem
e se a nós couber enfim
a ordem abrangente do sol
Prometo assim devolvê-lo
Sair de suas estradas
deixar seus dias refeitos
e de seus dizeres levar
só o que me é de direito
Todas as coisas que desfiz
se refizeram nos territórios dos sonhos.
Para o bem e para o mal os sonhos me assistem
quando já sem pulsação a eles recorro nos arrabaldes
do mundo. Os sonhos são os correlatos dos poemas e
dos anjos
As palavras são os veleiros do acaso
Se o vento permitir chegarão a bom termo
Se em nosso dicionário se cumprirem
resgatarão fevereiro
e este brasão solar esculpido
em nosso existir
Com elas recuperei o código
dos dias
desfiz o desalento dos alquebrados
e aos sonhadores dissuadidos
compartilhei-as como se fossem
o pão do mundo
As vezes durmo com as canções
da nossa infância
e descanso em seu cais
abandonado
Se tão perto e tão longe
apartados
é que me vejo de seu enredo
exilado
Ao longe diviso
seu mar azul
Mas já
sem o seu itinerário
O movimento da tarde diz outra coisa. Mas o movimento da tarde é o
movimento do meu coração. Enquanto a chuva cai sobre os bares e o
tempo, franze a marca de um acontecimento cósmico envolvendo a
suavidade do teu corpo. Extinto o tempo do estado de comunhão, ficaram
os calcários que levo no bolso, as ordens estabelecidas, esse pacto unânime
entre todos de não mencionar teu nome. Deixei assim que teu rosto
se distanciasse, até se afogar no horizonte. A geografia solar da cidade
ajudou muito, este processo de entorpecer.
Não existimos. Somos apenas o sonho de alguém que nos sonha. Quem escreveu isto foi Borges, e no século passado e ainda na Argentina, e precisamente em Buenos Aires, quando esta era uma esplêndida cidade, um enclave europeu em nosso degradado continente. Somos a realidade de alguém que nos sonha, acreditou Borges até a sua morte, sem poder imaginar as redes sociais que invadiriam o mundo afastando os livros, os sonhos e os homens. Talvez o próprio Borges, mesmo que exilado das palavras, ainda possa sonhar a Buenos Aires em que viveu, com suas pacatas vidas, cientes do que seriam do começo ao fim. Quanto a nós, os deserdados dos sonhos , nos empenhamos em nadificar tudo que cai em nossas mãos. Borges dorme na plenitude do nada e nós nos quedamos na solidão aprastadora de saber que o futuro se fez uma incógnita que os pósteros terão que reiventar.
Corre se não a iniquidade te atinge
Neste país de Quilombos
Vá e leva as auroras boreais
que nunca viste
nos alforges das alforrias
provisórias
Deixa para trás o pelourinho
dos dias iguais
as acusações intransponíveis
os amigos mortos
e o balanço sempre postergado
do que é certo do que é direito
do que é justo do que ensandece
na carne seca da noite
As palavras são como os veleiros do acaso
Se o vento permitir chegarão a bom termo
Se em nosso dicionário se cumprirem
resgatarão fevereiro
e este brasão solar esculpido
em nosso existir
Com elas
recuperei o código
dos dias
desfiz o desalento dos alquebrados
e aos sonhadores dissuadidos
compartilhei-as como se fossem
um achado
Escrevo para chegar
onde as palavras se calam
mas elas são ariscas
e quando as acho
me escapam
Eu fico com o arresto do que sobra
este alfabeto estrangeiro que tento
entender e me ignora
Traziam do mar
as redes com a quebração
da aurora
E este era sempre
o enredo
de sua vidas
salgadas
Anoto as palavras no mundo
não há latifundios precisos
para salvá-las da salga
e nada na alma que estanque
o sangue que vertem caladas
quando não podem nascer
e se cumprir como a água
Escrevo como uma forma de falar
com os pássaros
Não há cansaço nem rotina
neste ato
O esvoaçar dos pássaros sobre
a imensidão
é como o nascimento
de um poema
Também os versos como os pássaros
em voo
já trazem seus roteiros
quando nascem
Tiramos a carcaça do impossível
A pele dos primeiros dias
onde um sol forte reinava
Deixamos aos que viriam
a saga de uma nacão proscrita
a senha dos que se nutriam
da casca das estrelas
A alma dos sonhadores
em nós amalgamadas
agora pede passagem
mas a seca da noite é forte
e não hoa rendição negociada
Se os veleiros
não nos seguirem
No mármore da palavra
procuro a sinfonia
que me escapa
como esta noite finda
da qual só ficou a casca
onde se gera um poema
que ninguém abarca
Um relâmpago
do qual só se guarda
o espanto
Arrastavam pelo mar
as redes com a quebração da aurora
E este era sempre o enredo
de suas vidas caladas
No mar que não tem encostas
nem cercas em suas jornadas
traziam para salgar
os peixes que o mar deixava
Usando na sua salga
as suas vidas salgadas
Eu decifrei tua foto e a guardei
nas dunas da noite.
Há um temor não aplacado
na mansidão do teu olhar
calado
A noite teus olhos me abarcam
E eu busco em ti o que há de oceano
e acaso
teus olhos à noite me espreitam
Tristes e atônitos como
as estrelas
de Gaza
Hasteio a linguagem dos versos nesta noite
sem palavras. Longe de ti mas
a navegar pela poesia . Tudo que ela
me deu é muito mais que eu merecia.
Ouro, prata, terras, gado. Podem fazer o arresto
Mas não me tirem a poesia, que me
segue à minha revelia
em nosso rosto se talha
Não poderia fazer teu retrato
Porque teus olhos tristes
não caberiam na moldura. Teus olhos
inundam o mundo. Transbordam da tua alma
de menina errante, destas pequenas cidades
onde as adolescentes minguam e pode-se ver
as estrelas. Teus olhos te desnudam
em plena luz do dia.
No fugazes caminhos
do mundo
me deste um sorriso.
E eu o ensaio em mim
sempre que em mim apareces
E agora aqui sem você
longe da sua companhia
conjugo o verbo amanhecer
Sempre que em mim
amanheces
Uma revoada de pássaros pode
mudar o horizonte
Uma palavra pode mudar o mundo.
Pássaros ao acaso podem mudar
um destino
se coubéssemos em algum
destino
Evitaríamos assim existir com a ilusão
da qual não comunga os
pássaros, de que
cumprimos destinos
Quebro a máquina de janeiro
no coração mudo da matéria
pisando estrelas e vísceras abertas
Sigo sem destino fingindo ter destino
com a alma talhada por pedras
Mas a sombra de um menino me acompanha
diz-me ser eu mesmo antes de mim
Digo-lhe da morte das baleias e ele ri
Acendemos incensos pela noite
No mármore da palavra procuro a sinfonia que me escapa como esta noite finda da qual só ficou a casca onde se gera um poema que ninguém abarca Um relâmpago do qual só se guarda o espanto
Os usuários de poemas e estrelas
precisam saber
que um emigrante deportado do luar
não tem retorno
Quanto de mim ficará em você meu amor
depois que o oceano da tarde desabar?
depois que as mordidas exatas
que te darei no teu corpo
se tornarem tatuagens
errantes
Não há razão para o luto meu amor
depois que terminarmos todas
as festas da carne
Eu mostrarei a marca dos
teus beijos nos bares
e farei para ti os mais
belos poemas do mundo
sem mais me curar do estado de
comunhão para onde por momentos
me levaste
Se para ti palavras são veleiros
então elas te darão retorno
Com elas poderás remar
pelas grandes dunas do invisível
Se cada palavra for também
remo e harpa
terás então as tarrafas
para pescar a encantação
A mulher que acorda os pescadores/
Levanta-se cedo para fertilizar o mundo
Levanta-se suada e linda/Antes do nascer do sol
Com as palavras que a saciam/ já entranhadas
na carne/ mas que desconhecem sua alma de
menina.
A mulher que acorda os pescadores/finge não
saber
o que os poetas sabem
Hasteio
a linguagem dos versos nesta noite
sem palavras. Longe de ti mas
a
navegar pela poesia . Tudo que ela
me deu é muito mais que eu merecia.
Ouro,
prata, terras, gado. Podem fazer o arresto
Mas
não me tirem a poesia, que me
segue
à minha revelia
Se a dor não passa
adorne-se com os poemas
e o sol com que
aquecem
a imprecisão
do mundo
Tudo é uma matemática
clara
no chão da poesia
onde a vida desconhece
as coisas que não amanhecem
Busco
no coração da poesia
Uma palavra mais que etérea
Que já me devolva as esquinas
Ao me apaziguar com toda rima
Busco nesta palavra assombrada
O escopo de seu chão e madrugada
Para então seguir como poeta
Já não mais em terras
assoladas
Que o encontro com as leis
das águas
Seja belo nesta busca finda
Onde cada palavra
que me escapa
Volte a mim já não mais
silenciada
Para que no coração que a enlaça
Faça em suas estiagens nascer
vinhas
Cada pessoa guardará
Lido com a face secreta do mar
profaná-las
Muitos poetas te amaram
mas eu te amei muito mais
porque estavas