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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Questão

 

 

Se tudo não se acertar

seremos cantores mudos

mas quem nos alforriará

de ser sonhadores no mundo?

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Iniquidade

 

Corre se não a iniquidade te atinge

Neste país de pó e fuligem

vá e leva as auroras boreais

que nunca viste 

nos alforjes das alforrias provisórias

Deixa para trás

o pelourinho dos dias iguais

as acusações intransponíveis

os amigos mortos

e o balanço sempre postergado

e refeito

do que é certo, do que é direito

do que é doce, do que ensandece

na carne seca da noite

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

33 poetas


Éramos 33 poetas
apesar das falhas do céu
dos talhos no chão da carne
Amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte das baleias
e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguém morreria
no Outono
33 poetas
como Cristina Maria
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e pele morena de porcelana
33 poetas
assim como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas
esperando a polícia todo dia
fosse inverno verão ou primavera
Isso num tempo distante
quando eu ia correndo
pelas ruas
e o tempo estava estancado
não era como agora
hemorragia de aurora
Éramos como Edgar
- caçador de balões -
herói como todos nós
que sabia subir em jaqueiras
e nunca pensou
que iria enlouquecer
33 poetas
como Janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais dar certo
apesar do mistério da Bahia
em plena terça-feira de carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
Marta, um homem não é um trombone
Assim éramos tantos
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal solto
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto
Se desse para fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
Ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventanias sumidos
e beberia contigo
nas fontes nas águas nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos
Onde está Luiz Maranhão
desaparecido
ninguém sabe
ninguém responde
Havia uma bota no caminho
havia o cheiro de cilada e sonho
sobrevoando São Paulo
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1974
Éramos 33 poetas
em Santa Teresa
longe da Avenida São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde baniu-se para sempre
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que um vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes as cópulas
músicas sobrariam no ar
o tempo uma rede blindada
faria apagar da memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda subisse em jaqueiras
Ernesto tomasse a sua cerveja gelada
Cristina com seu hálito de fada
o tempo com sua malha de máquinas
telha frágil nó desatado
não revelou sua face aguada
só disse o seu lado concreto
que não vai dar no mar
mas no deserto
e assim se proclamou
súdito da cidade
senhor da dor e da saudade
Embora no calendário do dia
eu não veja o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões velhos
e gastos
tomarem de assalto
o dia

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Soneto

                           Estiagens e vinhas


 Busco no coração da poesia  

  Uma palavra mais que  etérea

  Que já me devolva as esquinas

  Ao me apaziguar com toda rima

 

  Busco nesta palavra assombrada

  O escopo de seu chão e madrugada

  Para então seguir como poeta 

  Já não mais em terras assoladas 

 

   Que o encontro com as leis das águas

   Seja belo nesta busca finda

   Onde cada palavra que  me escapa

 

  Volte a mim já não mais silenciada   

  Para que no coração que a enlaça

  Faça em suas estiagens nascer vinhas

  

domingo, 20 de outubro de 2024

Mármore da palavra


 No mármore da palavra

 procuro a sinfonia 

 que me escapa

 como esta noite finda

 da qual só ficou a casca

 onde se gera um poema

 que ninguém abarca

 Um relâmpago

 do qual só se guarda

 o espanto 

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Enigma

 


 

À noite sem o amor prevalecer

Os elevadores rangem submissos

Gemidos já não ressurgem/ Não há salvação

possível/ Ao longe a exaustão do mar

terça-feira, 8 de outubro de 2024

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