Se tudo não se acertar
seremos cantores mudos
mas quem nos alforriará
de ser sonhadores no mundo?
Se tudo não se acertar
seremos cantores mudos
mas quem nos alforriará
de ser sonhadores no mundo?
Corre se não a iniquidade te atinge
Neste país de pó e fuligem
vá e leva as auroras boreais
que nunca viste
nos alforjes das alforrias provisórias
Deixa para trás
o pelourinho dos dias iguais
as acusações intransponíveis
os amigos mortos
e o balanço sempre postergado
e refeito
do que é certo, do que é direito
do que é doce, do que ensandece
na carne seca da noite
Éramos 33 poetas
apesar das falhas do céu
dos talhos no chão da carne
Amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte das baleias
e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguém morreria
no Outono
33 poetas
como Cristina Maria
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e pele morena de porcelana
33 poetas
assim como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas
esperando a polícia todo dia
fosse inverno verão ou primavera
Isso num tempo distante
quando eu ia correndo
pelas ruas
e o tempo estava estancado
não era como agora
hemorragia de aurora
Éramos como Edgar
- caçador de balões -
herói como todos nós
que sabia subir em jaqueiras
e nunca pensou
que iria enlouquecer
33 poetas
como Janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais dar certo
apesar do mistério da Bahia
em plena terça-feira de carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
Marta, um homem não é um trombone
Assim éramos tantos
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal solto
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto
Se desse para fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
Ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventanias sumidos
e beberia contigo
nas fontes nas águas nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos
Onde está Luiz Maranhão
desaparecido
ninguém sabe
ninguém responde
Havia uma bota no caminho
havia o cheiro de cilada e sonho
sobrevoando São Paulo
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1974
Éramos 33 poetas
em Santa Teresa
longe da Avenida São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde baniu-se para sempre
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que um vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes as cópulas
músicas sobrariam no ar
o tempo uma rede blindada
faria apagar da memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda subisse em jaqueiras
Ernesto tomasse a sua cerveja gelada
Cristina com seu hálito de fada
o tempo com sua malha de máquinas
telha frágil nó desatado
não revelou sua face aguada
só disse o seu lado concreto
que não vai dar no mar
mas no deserto
e assim se proclamou
súdito da cidade
senhor da dor e da saudade
Embora no calendário do dia
eu não veja o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões velhos
e gastos
tomarem de assalto
o dia
Estiagens e vinhas
Busco no coração
da poesia
Uma palavra mais que etérea
Que já me devolva as esquinas
Ao me apaziguar com toda rima
Busco nesta palavra assombrada
O escopo de seu chão e madrugada
Para então seguir como poeta
Já não mais em terras assoladas
Que o encontro com as leis das águas
Seja belo nesta busca finda
Onde cada palavra que me
escapa
Volte a mim já não mais
silenciada
Para que no coração que a enlaça
Faça em suas estiagens nascer vinhas
No mármore da palavra
procuro a sinfonia
que me escapa
como esta noite finda
da qual só ficou a casca
onde se gera um poema
que ninguém abarca
Um relâmpago
do qual só se guarda
o espanto
À noite sem o amor prevalecer
Os elevadores rangem submissos
Gemidos já não ressurgem/ Não há salvação
possível/ Ao longe a exaustão do mar