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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Alfabeto das águas

 



Não sou eu que escrevo o poema 
 mas este inquieto espírito alado 
 desgarrado das ânforas do infinito 
Aqui, há muito tempo a acompanhar-me 
 Não sou eu que os escrevo quando o mar bate 
em mim como costados e me oferece dos búzios 
seus enredos e águas sussurradas 
Não sou eu que o escrevo mas este ente 
sempre inalcançável 
 que me fala pela alma dos barcos 
 e me concede paisagens para logo 
transmutá-las em estiagens

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Salga


Anoto as palavras no mundo

não há latifundios precisos

para salvá-las da salga

e nada na alma que estanque

o sangue que vertem caladas

quando não podem nascer

e se cumprir como a água




terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Enseadas

 


Nesta noite densa

em que em vão te estendo a mão

há um dizer sem razão

nas paredes alquebradas

dessas horas


Um dizer, quase ousadia

ao querer entender 

a liturgia

desses barcos 

nestas enseadas frias

 

 

sábado, 20 de setembro de 2025

Falar com os pássaros

 Escrevo como uma forma de falar

com os pássaros

Não há cansaço nem rotina

neste ato

O esvoaçar dos pássaros sobre

a imensidão

é como o nascimento

de um poema

Também os versos como os pássaros

em voo

já trazem seus roteiros

quando nascem 

Carcaça

 Tiramos a carcaça do impossível

A pele dos primeiros dias 

onde um sol forte reinava

Deixamos aos que viriam

a saga de uma nacão assolada

a senha dos que se nutriam 

da casca das estrelas

A alma dos sonhadores

em nós amalgamadas

agora pede passagem

mas a seca da noite é forte

e não hoa rendição negociada




segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Veleiros de vento

 


 Se os veleiros

não nos seguirem
mais pelo mundo,
outras palavras
nomearão as coisas,
uma velha roupa de madrugadas
não terá mais sentido
e o vínculo com os sonhos
estará desfeito.

Mas o que impediria
os veleiros
de permanecer tão janeiros
em sua vigília de brancas
velas
no mar amarrotados de ventos?

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Iniquidade

 


 

Corre se não a iniquidade te atinge

Neste país de pó e fuligem

vá e leva as auroras boreais

que nunca viste 

nos alforjes das alforrias provisórias

Deixa para trás

o pelourinho dos dias iguais

as acusações intransponíveis

os amigos mortos

e o balanço sempre postergado

e refeito

do que é certo, do que é direito

do que é doce, do que ensandece

na carne seca da noite

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Mármore da palavra

 


 No mármore da palavra

 procuro a sinfonia 

 que me escapa

 como esta noite finda

 da qual só ficou a casca

 onde se gera um poema

 que ninguém abarca

 Um relâmpago

 do qual só se guarda

 o espanto 

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Salgadas vidas

 Arrastavam pelo mar

as redes com a quebração da aurora

E este era sempre o enredo

de suas vidas caladas


No mar que não tem encostas

nem cercas em suas jornadas

traziam para salgar

os peixes que o mar deixava


Usando na sua salga

as suas vidas salgadas



sábado, 14 de junho de 2025

Tua foto

 Eu decifrei tua foto e a guardei

nas dunas da noite.

Há um temor não aplacado

na mansidão do teu olhar

calado


A noite teus olhos me abarcam

E eu busco em ti o que há de oceano

e acaso

teus olhos à noite me espreitam

 

Tristes e atônitos como  as estrelas

de Gaza

 

terça-feira, 3 de junho de 2025

Linguagem dos versos

 


 


                            

 

Hasteio a linguagem dos versos nesta noite

 sem  palavras. Longe de ti mas

a navegar pela poesia . Tudo que ela

 me deu é muito mais que eu merecia.

Ouro, prata, terras, gado. Podem fazer o arresto

Mas não me tirem a poesia, que me

segue à minha revelia

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Relógio


 


                               


Que relógio é esse
batendo às cinco da tarde
entre as folhagens do tempo
e as ramagens do nada?


É a noite que o fita
e os homens o habitam
em sua febril batida
nas avenidas das almas


É a noite que o tece
em suas horas cansadas
onde a gestão da vida

em nosso rosto se talha 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Contingências

 


 

 

 

Todos os dias acordamos sitiados

Sabemos que lá fora fica o mar e seu país

azul.

Sabemos que as ilhas fazem parte

desse  continente ocupado.

         E  que nossas vidas e outras 

         oscilam entre os dias serenos

         e o abate

         E quanto ao mais

         nada sabemos

 

domingo, 25 de maio de 2025

Teu retrato

 

   

 

Não poderia fazer teu retrato

Porque teus olhos  tristes

não caberiam na moldura. Teus olhos

inundam o mundo. Transbordam da tua alma

de menina errante, destas pequenas cidades

onde as adolescentes minguam e pode-se ver

as estrelas. Teus olhos te desnudam

em plena luz do dia.

 

sábado, 24 de maio de 2025

Amanhecer

 


 

 

No fugazes caminhos

do mundo

me deste um sorriso.

E eu o ensaio em mim

sempre que em mim apareces

E agora aqui sem você

longe da sua companhia

conjugo o verbo amanhecer

Sempre que em mim

amanheces

 

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Destinos


 

Uma revoada de pássaros pode mudar o horizonte

Uma palavra pode  mudar o mundo.

Pássaros ao acaso podem mudar um destino

se coubéssemos em algum destino

Evitaríamos assim  existir com a ilusão

da qual não comunga os pássaros, de que

cumprimos destinos

  

segunda-feira, 19 de maio de 2025

O Alfabeto das águas


Não sou eu que escrevo o poema 
 mas este inquieto espírito alado 
 desgarrado das ânforas do infinito 
Aqui, há muito tempo a acompanhar-me 
 Não sou eu que os escrevo quando o mar bate 
em mim como costados e me oferece dos búzios 
seus enredos e águas sussurradas 
Não sou eu que o escrevo mas este ente 
sempre inalcançável 
 que me fala pela alma dos barcos 
 e me concede paisagens para logo 
transmutá-las em estiagens

sexta-feira, 2 de maio de 2025

No Coração da Matéria

 Quebro a máquina de janeiro 

no coração mudo da matéria

pisando estrelas e vísceras abertas

Sigo sem destino fingindo ter destino

com a alma talhada por pedras

Mas a sombra de um menino me acompanha

diz-me ser eu mesmo antes de mim

Digo-lhe da morte das baleias e ele ri

Acendemos incensos pela noite

acudindo vaga-lumes descuidados

que agonizam no chão áspero da terra

Criamos com a areia do mar a fórmula

de salvar o mundo

usando serragem de estrelas

mas tudo é um sonho

Ele deita o rosto no meu peito assolado

por uma poesia sem dono

e diz ouvir os navios da infância

pergunta-me quem foi Gepeto

pergunta-me o que é o cansaço

pergunta-me sobre sua mãe e seu pai

sobre todos os movimentos dos barcos

que vê e me mostra no horizonte

onde eu

cego pelo hábito de viver incrédulo

não vejo o que sei que lá se encontra

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Mármore da palavra

 No mármore da palavra procuro a sinfonia que me escapa como esta noite finda da qual só ficou a casca onde se gera um poema que ninguém abarca Um relâmpago do qual só se guarda o espanto

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Laje

A noite arada pelo vento te afaga com seus elementos, mas teu semblante sobre a laje branca, já não tem o ar cansado dos passantes. Em ti ancoram ínfimos os navios dos teus poemas, mas estás aqui alheio à multidão de signos. Tens por fim somente a companhia de teus versos que nesta madrugada pousam leves como bichos ariscos de outros universos.

sábado, 12 de abril de 2025

Firmamento

Eu pisava no firmamento e chovia.  Alegorias de cães quebravam a ordem do dia.  Os chumaços dos avisos que eu derramei pelo tempo passaram a me nomear. Sem me dar conta. Sem acatar contas. Nobre é esta relva em que me deito na contramão do azul. No leito dos últimos dias. Foi quase uma intenção sacrificar Os pássaros

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

O poema sem retorno

 


 


 

Os usuários de poemas e estrelas

precisam saber

que um emigrante deportado do luar

não tem retorno

Quanto de mim ficará em você meu amor

depois que o oceano da tarde desabar?

depois que as mordidas exatas

que te darei no teu corpo

se tornarem tatuagens

errantes

Não há razão para o luto meu amor

depois que terminarmos todas

as festas da carne

Eu mostrarei a marca dos

teus beijos nos bares

e farei para ti os mais

belos poemas do mundo

sem mais me curar do estado de

comunhão para onde por momentos

me levaste

sábado, 4 de janeiro de 2025

Remo e harpa


Se para ti palavras são veleiros

então elas te darão retorno

Com elas poderás remar

pelas grandes dunas do invisível


Se cada palavra for também

remo e harpa

terás então as tarrafas

para pescar a encantação