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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Reminiscências

As vezes durmo com as canções da nossa infância e descanso em seu cais abandonado Se tão perto e tão longe apartados é que me vejo de seu enredo exilado. Ao longe diviso seu mar azul. Mas já sem o seu itinerário

Revisão

Um dia tudo será revisado. O caminho da tarde evadida. um homem que sonhou o mundo e seus percalços (em sua caminhada pela errância) Tudo será revisado Nossas vertebras quebradas Os barcos que foram ao mar sem mapas náuticos. O rosto amordaçado da esperança

Constatações

Se tudo não se acertar seremos cantores mudos mas quem nos alforriará de ser sonhadores no mundo?

sábado, 3 de outubro de 2026

Alegorias

Eu pisava no firmamento e chovia. Alegorias de cães quebravam a ordem do dia. Os chumaços dos avisos que eu derramei pelo tempo passaram a me nomear. Sem me dar conta sem acatar contas. Nobre é esta relva em que me deito na contramão do azul. No leito dos últimos dias. Foi quase uma intenção sacrificar os pássaros.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Na Quebração da Aurora

Eis a prova de que janeiro antecedeu o mar, quando navegávamos errantes em um mundo que antecedia os nomes. Eis que janeiro nos navegou pelos barcos dos acasos e já não há como voltar. Hoje abraço janeiro sem as neblinas que se tornam antolhos. Janeiro e seus longos horizontes abarrotado de navios, a se resgatar na quebração da aurora. Janeiro não pertence mais as águas. Agora é só uma cilada. O escalpo aguado de um sonho.

domingo, 6 de setembro de 2026

Mal e Bem

Voraz é a vida que não se explica, que não cabe neste dia apartado. O mal sempre encontra seu amparo. Seu porto abarrotado de alquimistas. Mas o bem nunca encontra primazia, bolsos de sonhos encharcados. Tem que provar a que veio. Só depois encontra alforria

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coroa Grande

A cidade existe. Com seu mar cercado por uma baía e uma ponte interrompida pela noite. Com breves palavras a percorremos. Chamava-se Coroa Grande. Nela iniciamos a revolução dos meninos. Nela construímos as trincheiras de vento feitas com a densa poesia dos sonhadores, caminhando na linha de um trem que a cortava, para longe de todas as palavras, com a febre dos estaleiros e inventários das águas. Essa cidade assim ficou deitada em minha vida, como um entroncamento do destino, pelo qual, tomado um rumo, não há retorno. Seus passageiros saltaram do ônibus e de um mundo em movimento,sedados pela ferocidade das horas. Largaram a estrela da manhã em minhas mãos e eu a levo neste ônibus das cinco, por dentro dos mesmos caminhos de ruas sem volta, onde não diviso mais os canteiros de encantação daquela cidade mágica, nem suas namoradas, nem os amigos tão breves. A estrela da manhã,migrou de minhas mãos,tornando-se um anacrônico ícone do passado. Incompreensível para a ordem do agora.

sábado, 25 de julho de 2026

A Poesia Madura e de Vez de Efigênia Alves

A poesia de Efigênia Alves foi a surpresa que chegou às minhas mãos neste conturbado Início de ano de 2025. A começar pelo título “Verbos maduros e de vez -E outros poemas” me dei conta, com alegria, que Efigênia Alves, que eu já conhecia como romancista, também é uma rara poeta que em seu primeiro livro de poemas já nos surpreende com o seu texto coberto de sertão e memórias de uma meninice que felizmente nela permaneceu. Logo de início somos compensados por poemas compostos de versos abarrotados de lirismo. Vale a pena pontuar o poema que leva o título de sua obra. Já nos primeiros versos está tudo dito: “Refiz os verbos na véspera de um domingo/ Ensaiei o tom a meio termo para não me trair dizendo tudo o que sei/Mas o domingo amanheceu em passarinhos que bicaram os verbos maduros e até os verbos de vez” . Sim, constato ao ler o livro desta poeta que em seu texto há também poemas transbordantes de sertão e natureza, e são nestes, na minha opinião, que sua poesia mais cresce. Finalizo este suscinto prefácio pontuando alguns momentos, em que a menina Efigênia aparece em sua poesia tão densa de lirismo ao dialogar com figuras parentais já não presentes, mas com quem estabelece ou refaz os diálogos de grande beleza como este : “ Eram as palavras o que se tinha com fartura, naqueles tempos de muitas bocas e pouco feijão. Tivesse cuidado com a prestância das palavras, a mãe dizia. Falação demais pode engasgar e de menos entala” O Nordeste que a cada momento nos surpreende com uma nova safra de escritores e poetas já tem um lugar reservado para Efigênia Alves entre seus pares. Se havia alguma dúvida já não há. Deixo aqui, um trecho de um de seus poemas de título “Enchente”, que considero um dos mais lindos, para ser degustado por seus leitores, dos quais eu me incluo com muito orgulho “Desde que saí das águas primárias, enfrentei tantas enchentes.../ Morri algumas vezes, é verdade. Mas emergi, cansada, com frio e um desejo de continuar nadando sobre a superfície do mundo. E foi assim, a braçadas, que fui morrendo menos. As águas eram também caminhos...(Francisco Orban)

sábado, 30 de maio de 2026

Conselho das águas

Não aprume a vela das jangadas. Deixe os ventos do mar cumprir essa jornada. Pois elas tangenciam e colhem o sal do mundo. E tu só tens os remos das palavras. Portanto não afronte os horizontes. Pois eles são a morada das águas. E se esses ventos hoje salgam os dias, amanhã te darão uma enseada

sábado, 23 de maio de 2026

AS PALAVRAS

 


 

As palavras são como os veleiros do acaso

Se o vento permitir chegarão a bom termo

Se em nosso dicionário se cumprirem

resgatarão fevereiro

e este brasão solar esculpido

em nosso existir

         

 Com elas recuperei o código

dos dias

desfiz o desalento dos alquebrados

e aos sonhadores  dissuadidos

compartilhei-as como se fossem

um achado

domingo, 17 de maio de 2026

ESCRITA

 

Escrevo para chegar

onde as palavras se calam

mas elas são ariscas

e quando as acho

me escapam


Eu fico com o arresto do que sobra

este alfabeto estrangeiro que tento

entender e me ignora 









quarta-feira, 11 de março de 2026

Redes

 

                       Traziam do mar

                  as redes com a quebração

                  da aurora

                  E este era sempre

                  o enredo

                  de sua vidas

                  salgadas