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sexta-feira, 2 de maio de 2025

No Coração da Matéria

 Quebro a máquina de janeiro 

no coração mudo da matéria

pisando estrelas e vísceras abertas

Sigo sem destino fingindo ter destino

com a alma talhada por pedras

Mas a sombra de um menino me acompanha

diz-me ser eu mesmo antes de mim

Digo-lhe da morte das baleias e ele ri

Acendemos incensos pela noite

acudindo vaga-lumes descuidados

que agonizam no chão áspero da terra

Criamos com a areia do mar a fórmula

de salvar o mundo

usando serragem de estrelas

mas tudo é um sonho

Ele deita o rosto no meu peito assolado

por uma poesia sem dono

e diz ouvir os navios da infância

pergunta-me quem foi Gepeto

pergunta-me o que é o cansaço

pergunta-me sobre sua mãe e seu pai

sobre todos os movimentos dos barcos

que vê e me mostra no horizonte

onde eu

cego pelo hábito de viver incrédulo

não vejo o que sei que lá se encontra

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