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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A Cidade de luz






A cidade era de luz
e casas
enquanto nós
vestidos com a pele
das águas
deslizávamos imunes
dentro de uma geografia
que envolvia
o riso de Cristina
e toda orla marítima
não dominada

Saber sinfônico



Por ser um sonhador
quebrei o rio das falas
onde tudo se dizia

Envolvi-me com o grande
país do nada
onde o mar das horas
navegava

Imputei à noite
as normas de outra pátria
a poesia como saber sinfônico
Fui um breve escultor
do mundo
imbuído de solidões
gráficas

Arguí silêncios
para a sós com as palavras
profaná-las


           Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                   de Francisco Orban

Minha namorada



Minha namorada
tem cabelos e silêncios
Pele de porcelana morena
Dilemas abertos
no seu corpo

Minha namorada
tem o sexto sentido
peitos apontados
para o meu delírio

De noite
ela pisa nos embriagados
distantes da terra


          Do livro de Francisco Orban

                        Cesto das canções com pássaros

Só o deserto






Só o deserto
meu amor
sabe do meu amor
por você
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer

Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar
sabem

                     Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                      de Francisco Orban

Fadas






Abraço a maciez
das fadas
que me beijam
com bocas
descuidadas



       Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                      de Francisco Orban

Os poemas






Os poemas são só delírios
Vagalumes perdidos
das esperanças que hibernam

Mãos de marinheiro





Ter mãos de marinheiro
e entender o mar
Ter mãos passageiras
e não afrontar o mar
porque os vínculos
do mar
são seus horizontes

Entender o mar
e sua latitude branda
entender sua fala
entrecortada
de arroubos
e seu marulho que desfaz
o mar dos sonhadores
porque o mar dos que sonham
é outro
e não move as águas
mas o mundo

Noites e versos





Todos os cães vadios
esperam que a noite se entregue
E nos recupere meninos
e nos resgate moleques

Todas as noites sem versos
têm a mesma natureza
Como as canções largadas
no bolso das velhas camisas

Todas as noites perdidas
vivem a sua profecia
sonham o seu destino

de acordarem dias

Inventários




Parece que foi ontem
O vinho era quase saudade
A vida era quase verdade
no grande país das horas

Parece que foi ontem
sofrer tinha quase um sentido
viver era um grande achado
e os vagalumes nos seguiam

Parece que foi ontem
o que a ventania nos dizia
O tempo passou redondo
breve alegoria

Subsolo










Debaixo do Rio de Janeiro
existe uma cidade de prata
me disse um dia uma moça
que tinha o rosto cansado
de amor cilada e desgosto



Do livro "Cesto das canções com pássaros"

               de Francisco Orban

Canções banidas





A noite interditou
os mais belos
versos
e a dor dos versos
soletrados
são hoje canções
banidas

A noite interditou
o mar
que chegava
à minha rua
com suas canções
de roda
lembrando peixes
antigos
de orlas distintas

    Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                       de Francisco Orban


Horizontes



Morrer com as pedras
do silêncio
incrustadas
no chão do não
acontecido

Morrer com os versos
velejando
fora da matéria
do que somos

Morrer com os horizontes
do mar
adormecidos
no sangue


  Do livro "Cesto das canções com falas"
          de Francisco Orban

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Festa dos ciganos





Marina
andei léguas de falas
para chegar a ti

Eu era escafandrista
das vidas e das almas
andava na São João
com medo de frio e bala

Tinha feito uma viagem
ao Nordeste e não deu certo
Tinha ido ao Polo Norte
vender gelo à turista

Agora estava de volta
cansado, hipocondríaco
E tu estavas igual
com teu silêncio de seda
e tuas saias erguidas
na festa dos ciganos

   Do livro "Cesto das canções com pássaros"
   de  Francisco Orban

                  

Dezembros



Vendo na feira
dezembros e quartas-feiras
trazidos do território
da grande noite
inacabada


                Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                               de Francisco Orban

Inventários de areia






Estes navios que vejo
sob os meus olhos acesos
são o cortejo que passa
dos meus sonhos adernados

andam à deriva
vindos da noite das horas
aos meus apelos se chegam
aos meus afagos se calam

com seus tombadilhos
de vento
desenharam no meu rosto
meus inventários
de areia

Resgate






Tua alma
foi retirada do mar
e recostada na areia
Trouxeram os vinhos
da terra
Ate um beijo de sereia

Perdidas as preces
Façam-lhe  o gosto
Aqui as frutas do mês de agosto

Passado o mar
tudo se fala
menos do sal
de suas águas


Tua alma agora
quer ser do mar
rever antigos mariscos
roçar nos velhos navios
cair em silêncio profundo
desintegrar-se do mundo

Arfar das palavras









Mora ao largo da matéria
o arfar as palavras
que tiradas do luar
dos quintais
retornam ao chão
andarilhas


Chegam como são
uns passarinhos breves
E tanto faz
que seus passos  sejam
como o entardecer
das ruas


Há um gorjear no mundo
que atrai as palavras
recostadas à tez da tarde
costeando o cheiro
dos grandes amores


       Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                      de Francisco Orban


Moinhos






Reinventar-se com o mar
Atenuar as pedras das palavras
Moer os moinhos de vento

Alaridos



Os jarros postos na manhã
improvisam os pássaros
os navios ao acaso
improvisam os sonhos

Eu me improvisei
encantado
ando por aí
reconhecendo em mim
um rei que sonha

As palavras me espreitam
por toda parte
os alaridos dos signos
me acompanham 


   Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                   de Francisco Orban


Tumulto a esmo








O mar desfazia
meu texto
Com seu tumulto
a esmo
jogava a madrugada
contra mim
que amei
suas gaivotas
que planavam sem fim
pela vida
bicando
sua sinfonia


 Do livro de Francisco Orban
"Cesto das canções com pássaros"

Memória do cais

           





Versos alinhavados
sofrem nos paus-de-cerca
Cobria-se a noite
com a memória
do cais

As coisas sem infinito
pereciam
A adolescência era
morna e seca

Uns breves anjos
pousavam no arfar do dia
Puíam a extensão das horas
com seus andrajos
ébrios de tanta
fantasia

Cumprir a tarde

                               



Um homem
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde

Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa mentir
que o resgata
do abate

Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde

Como se sonhar
fosse só um ato
e não um difícil
encargo

Sujeitos/advérbios






Signos de ar
de noite desato
versos
que fogem
para o luar

Andam pelo telhado
zombam das minhas
metáforas

Esses sujeitos
advérbios
adjetivos ingratos
na voz do tempo
se encontram
 mas quando os busco
me escapam



                    Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                                         de Francisco Orban

Tabela periódica





Minha cidade
tem verdes estações de chuva
e a matéria de suas ruas
são girassóis encapsulados

Minha cidade tem
namoradas morenas
Os seus estádios de futebol
são grandes palcos ensolarados
Os seus elementos de ar
regem-se pela tabela periódica
dos poemas dos sonhadores
da terra


A minha cidade
tem o mar
como o grande

divisor de tudo

Agosto




Agosto anoitecia
a tarde cercava os pandeiros
até que chegou o violão
e a tarde cercou os violeiros
Até que chegaram as mulheres...

Uma, levei-a pela mão
na noite desordeira
esbeltas como ela
havia tantas outras
mas suas mãos eram mar
e me beijava sua boca
e seu olhar eram falas
que me diziam do Outono

De um poema ela vinha
porém sem muitas palavras
envolta em fantasia
e cheiro de madrugada
E ela me trouxe junto
de suas pernas aflitas
A noite ficou coberta
de vagalumes parados
que nos assistiam ao longe
iguais a luzes suspensas

   Do livro de Francisco Orban

                   Cesto das canções com pássaros

Navios de vento



A palavra é recurso
escasso
mas se alimenta
de quintais
e eu me alimento
das palavras
que não cabem
na vida imposta
com seus navios
de vento
adernados nas horas

Alvoroço do teu abandono





De ti amei o imponderável
nos ramos escusos da paisagem
Em nós a estação do desencontro
alçou cumes
pois não guardei
a tez da tua pele
nem o alvoroço
do teu abandono

Palavras







Um dia achei as palavras
em um país a deriva
A noite se debatia
nos cata-ventos
da aurora

O que é agosto
é agosto
sussurravam as palavras
fora dos favos
das horas

O mar



O mar
e seus lençóis de vento 
Suas calcárias
noites
e seu silêncio
ruidoso 

O mar e seu tormento
que passa
suas dunas de água
e sua praça
principal

O mar
e seu molambo de lua
sua procuração
de lama
e seu diluvio azul
na ordem oficial

O mar
e sua estação de falas
e seu perfume não nascido
do planeta em que fomos
meninos

O mar
e sua libertação provisória
seus navios à deriva
entranhados
na memória da orla

O mar
e sua vida íntima
seu vento salino
salpicando nas canções
banidas

O mar como uma país
de esquinas
afogando seus afogados

O mar como o grande
senhor de tudo
sobre a cidade
que o situa
sitiada


     




Extinção






Os passarinhos
Apenas agridem
seus bicos 
nas peles dos vidros

Não sabem que as eras
das migrações

passaram



        Do livro "Cesto das canções com pássaros"

                       de Francisco Orban

terça-feira, 27 de outubro de 2015

33 poetas








Éramos 33 poetas
apesar das falhas do céu
dos talhos no chão da carne
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte das baleias
e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguém morreria
no Outono
33 poetas
Como  Cristina  Maria
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e pele morena de porcelana
33 poetas
Assim como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas
esperando a polícia todo dia
fosse inverno verão ou primavera
Isso num tempo distante
quando eu ia correndo
para o ginásio                                       
e o tempo estava estancado
não era como agora
hemorragia de aurora
Éramos como Edgar
- caçador de balões -
herói como todos nós
que sabia subir em jaqueiras
e nunca pensou
que iria enlouquecer
33 poetas
como Janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais dar certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
Marta, um homem não é um trombone
Poeta era Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal solto
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto
Se desse para fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
Ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventanias sumidos
e beberia contigo
nas fontes nas águas nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos
Onde está Luiz maranhão
sumido em 1974?
ninguém sabe
ninguém responde
Havia uma bota no caminho
havia o cheiro de cilada e sonho
sobrevoando São Paulo
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
Éramos 33 poetas
em Santa Teresa
longe da Avenida São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde baniu-se para sempre
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que um vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes as cópulas
músicas sobrariam no ar
o tempo uma rede blindada
faria apagar da memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda subisse em jaqueiras
Ernesto tomasse a sua cerveja gelada
Cristina com seu hálito de fada
o tempo com sua malha de máquinas
Telha frágil nó desatado
não revelou sua face aguada
só disse o seu lado concreto
que não vai dar no mar
mas no deserto
e assim se proclamou
súdito da cidade
senhor da dor e da saudade
Embora no calendário do dia
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões velhos
e gastos
tomarem de assalto
o dia


                 Do livro "Sobrado das horas"

                             de Francisco Orban

Mundo que se basta



O mundo que se basta
em mim
não é o que eu imaginava-
Eu iria mais longe
nos meus navios

Mas o mundo que se basta
em mim
é o meu legado:
a lembrança dos ciganos
as vidas sem sobrenome
os inventários abertos

As lendas das almas
retalhadas
nas palavras dos meus versos


          Do livro "Sobrado das horas"

                       de Francisco Orban







Cigano antigo








Sou um cigano antigo
de uma época antiga
Estou nessa cidade
de paraquedas
e meus olhos destilam
violinos e barcos a vela

Sou um cigano
no meio de uma cidade
moderna
e meus pés pisam o chão
de um país sem fala

Não sinto o chão dos tombadilhos
as luas
os sinais dos cometas

Sou um cigano antigo
na orla do tempo
com um brinco
na orelha

              Do livro " Sobrado das horas"

                      de Francisco Orban

Tempo

Tempo
eu andava contigo
pela orla do mar
quando tudo era silêncio
e ventania
E foi assim que vivi
vestido de Carlitos
por dentro da roupa oficial
colhendo em minhas mãos
o rosto das mulheres

Tempo
por ti quebrei e colhi cidades
provei de barcos e naufrágios
mas nunca soube me deter
diante da primeira aurora
diante do primeiro amor
diante do rosto que foi embora
Eu nunca soube me deter


Do livro "Sobrado das horas" de 

          Francisco Orban

Esquecimento





Cansei de ti
Para ti oferto
as coisas descidas
da cruz do tédio.
Meu delírio de Carlitos
embriagado
Um pó de tardes
com lua
Uma utopia de
espanto
E se isto não te bastar
Te entrego os silêncios
do mar
a tarde encantada
de um país proscrito
o ritmo dos búzios
e das bailarinas


  Do livro "Sobrado das horas"

                 de Francisco Orban


Fada urbana



Fada urbana da madrugada
chegue à janela
me afague com sua boca
me chame
E eu lhe mostro as mãos feridas
pelas estrelas da noite
e você me mostra
o que ficou
das lendas e das
algazarras



 Do livro "Sobrado das horas"

             de Francisco Orban

Constatação







Desautorizado
entre ruas e vis paixões
Onde estás, abandonada?
É nosso o quarto intermediário
entre o amor e o nada

Desautorizado
entre correntes marítimas
fichários secretos
e tristes arquivos

Bandido procurado
criador de poemas solares
e mínimas ousadias

Impossível sonhar
quando me deito não durmo
Ou é a sombra do nada
ou é a sombra do mundo


 Do livro "Sobrado das horas"

                de Francisco Orban

Procuração do mar



Artesão dos signos
procurador do mar
O ar e seus inquéritos
fraudados
A vida e suas alianças
frágeis

Domo o mundo



Domo o mundo
e o mundo me cega
É um jogo
é uma luta
existir nesta terra

Ensaio rotas
arrumo rumos
e trancam as portas
Em vez das flores
nascem musgos

Eu domo o mundo
e o mundo me anota
no seu boletim
de brincadeiras


 Do livro "Sobrado das horas"

                  de Francisco Orban

Uma forma de barcos







Desse porto de lógica
dessas mãos quase frias
dessa noite branca
quem me poupará?

Quando formos só
uma forma de barcos
não os barcos
um resquício do sonho
não o sonho
um esboço da carne

Quem me ajudará
quando o mar invadir
a rua
cobrir edifício
afogar a lua

E às três da tarde
Após os sinos
Após os signos

A fala secreta disser
“Cala-te, esse é o ingresso”


            Do livro "Sobrado das horas"

                           de Francisco Orban

Debandada






Tivemos que deixar o país
porque era noite
e uma constelação
de beija-flores
bicavam as nossas costas

E o cinza andava solto
e a lua de prata queimava o ventre
de nossas namoradas

Tivemos que deixar o país
as garagens de tempo
e pisar no que era nosso
no país dentro do país


   Do livro "Sobrado das horas"

                de Francisco Orban

Encantado







Encantado não era
o lugar
Encantado era
eu



Do livro "Sobrado das horas"

                                           de Francisco Orban

Ladrilhos



Nas ruas da tarde
os homens sangram os dedos
nos ladrilhos das palavras
Mas ninguém sabe
que canção muda
ficou retida
que ave de silêncio
pousou no ombro

da encantação


           Do livro "Sobrado das horas"

                         de Francisco Orban

Estrela de outro planeta

            








Na minha infância
também era assim:
A terra era a estrela
de outro planeta

Sete gatos






Tenho vida de sete gatos
e cérebro de homem
que ama
A noite tece infinita
tramas e pássaros

em chamas



          Do livro "Sobrado das horas"

                                 de Francisco Orban

Navios desatentos








Também se matam os navios
desatentos
deitados no horizonte
com seus tombadilhos
e sonhos

Também se cometem crimes
fora da rota do vento

Por causa de um momento
- um hálito de sereia -

deita-se tudo a perder

             
                 Do livro "Sobrado das horas"

                                de Francisco Orban

Zombador







Agora cansei de mim:
vou ser zombador
Com minha alma de pano
jogarei a saudade
nas valas estreitas
coloniais

Estou cansado da tecnologia
das ruas
do metal anêmico
e da palavra faturar
que não rima

Quero uma namorada morena
com os peitos apontados

para o meu delírio


                 Do livro "Sobrado das horas"

                              de Francisco Orban

Fala das águas

                  






Mar:
encontrei num pedaço
de búzio
mil noites engavetadas
que eu botava no ouvido
para ter a fala das águas
e a dimensão do mundo
feito um menino maluco


            Do livro "Sobrado das horas"

                           de Francisco Orban

O tempo






O tempo matava os edifícios
o tempo quebrava as árvores brandas
Nunca fiz proselitismo
mas nunca fui senhor
de tantos silêncios
como hoje

Nas mangas da minha camisa
os sons dos violinos
as tardes nefastas

e muitos fratricídios

             
                      Do livro "Sobrado das horas"

                                 de Francisco Orban

Bandolins



Os bandolins tocavam claros
sob brandas tardes
era o carnaval
o cheiro das águas brancas
o furor das cidades
em que crescíamos

O gosto da tua boca
nos prédios em clandestinidade

Impossível recompor estes mapas
Éramos  senhores incondicionais da utopia
Hoje somos índios demarcados

mero acidente literário


         Do livro "Sobrado das horas"

                               de Francisco Orban

Passagem de barco





Passávamos de barco
no rio aceso do tempo
Você era bailarina
e tinha medo
E ninguém sabia
que a luz do desejo
nos seguia
E os edifícios eram
margens
E botávamos a mão
na água do tempo
e tudo era a paisagem

       Do livro "Sobrado das horas"

                                 de Francisco Orban

Bondes e marfin






O bonde e o marfim
tinham algo em comum
Mas como saber
se bonde é luar
e marfim também

Os bondes ficam
de prontidão cívica
nas noites de euforia nacional

Santa Teresa
sitiada entre as estrelas
e os sonhos
era o celeiro dos
bondes

Por lá pairam

suas almas brandas

Trens cotidianos






É preciso ter os braços dos nadadores
os silêncios dos peixes
E os olhos dos cães
para prosseguir nesta cidade
onde não cabem meus cabelos
e nem deságuam meus sonhos
E descobrir que o mundo é um lugar
sem vida
longe dos que sonham
É preciso ter a solidez humana
para descobrir
que as nossas lembranças
são tatuagens errantes
levadas para toda parte
e o planeta tem em cada espaço
um nome peculiar, inédito
Cascadura por exemplo
uma notícia nas artérias
E eu trago dela
a tatuagem das mãos que tudo
esperam
O calor do meio-dia
orquestrado por mil trens cotidianos


                            Do livro "Sobrado das horas"

                                      de Francisco Orban

Corredor da noite








Agora sou amanhecer voraz
etapas queimadas
outubro em pele de sol
por dentro do corredor da noite


         Do livro "Sobrado das horas"

                           de Francisco Orban

Pontes de luzes



Noite densa de falas e pontes
Que país sangrado é esse de tantos horizontes?
No meu tempo não era  assim
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
Os bondes passavam sob as pontes de luzes
e não havia canção muda nos meus versos

No meu tempo não era  assim
as pontes do Rio me diziam
um “animal de sonho” espreitava
a vida oficial que se vivia
E eu amava as  luzes do Rio
que eram de marfim e eu não sabia

Meus navios





Durante muito tempo quis ter a consistência dos navios. Não os reais, mas os que navegam na mente. Já que achei que o mundo é  apenas um acidente de percurso, dei aos meus navios um mar acidentado, para que pudessem velejar sob as escarpas das águas e destinos. Também lhes ensinei a língua dos horizontes para que pudessem atravessar o caos do mundo sob a lua e também um mapa medieval, para que chegassem aos mares dos sonhos. Durante muito tempo meus navios tiveram um intrigante semblante. Pareciam monumentos móveis em suas marinas distantes, a tocaiar aves ribeirinhas e amparar os pescadores cegos. Meus navios se foram e para mim ficaram as calmarias. Com elas faço inventários de areia, dia após dia.


         Do livro de Francisco Orban, Leilão de acasos-  ed  Garamond

domingo, 18 de outubro de 2015

Theodor Adorno

"Só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade". 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

País feito de achados


Acordei com uma palavra vinda de um rio. Era o início do conto que escreveria, não fossem tantos outros que se revezavam. Trouxe este conto para a linha de frente, afastando imagens e vernáculos. Agora, posso escrevê-lo, mas antes o mapeio com um barco, pois temo no percurso achá-lo raso, para os longos pensamentos que abraço. Munido de uma tarrafa, jogo-a nos olhos das palavras, em águas já não claras, onde a poesia e as metáforas circundam inocentes em minha mente. Agora, face a face com seu teor, me emociono com seus horizontes de esquecimento, seus corredores de vento, onde somos arremessados em suas margens. Depois enveredo por um labirinto onde os deuses vedam a passagem. Lá estou dentro do conto, no âmago de cada sentido. Cada palavra surpreendida revela uma nova vida, cujo canto pode embriagar-nos e para sempre prender-nos em um país feito de achados.

Do livro de Francisco Orban, Leilão de acasos

Como um poema esquecido


                                                                        
Aquela  tarde nunca esteve tão perto
Como um poema esquecido
e hoje aqui reaberto
volto à cena antes
dos presságios
Refaço  a planície
em que  me recostava
sobre o leito  do teu amor
na borda de uma grande
cidade inesperada

Nunca a madrugada
ficou tão clara
como quando teus seios
recostados ao meu peito
acendiam a luz das calçadas
Eu que tinha sido
apenas o emissário
de um outono
estava    
unido a ti
para sempre
sobre a doçura
do teu corpo aberto

Beijos e danos



Agora diante das ilusões mortas
resta puxar a carroça sem rodas
dos danos
Com as costelas expostas
e o verbo viver já surrado
resta  alimentar-se
dos resquícios dos nossos beijos ´
resvalados
Eu que te amei fora das estações
do desencontro
não distingo as palavras que te trariam de volta
E não adianta dizer meu amor
porque a voz (como num sonho)
não acompanha o pensamento
e para ti a palavra amor vinda de mim já não é nada
ou talvez só te remeta à esta carroça
no meio desta estrada sem volta

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O poema de amor




 Muitos poetas te amaram
mas eu te amei muito mais
porque estavas
no coração selvagem das estações
do mundo
e as amarras que nos apartavam
sob o teu olhar desatavam-se
e tudo era o nascimento
da encantação

Muitos outros te amaram
mas eu te amei com meu amor sereno
e pousei uma flor
na palma da tua mão
E plantei um beijo no teu sorriso
e tu cobriste de doçura com os teus gemidos
o que era o início do mundo

Muitos te amaram
mas só eu segui contigo o caminho das águas
quando meu amor louco ressoava
e fazia debandar os navios


Sol das esperanças
mar dos horizontes amarrotados de barcos
Aqui estou assolado pelas multidões de dias
e dos caminhos que encontrei pelo mundo

Ouça meu amor este poema
agora que o crepúsculo nos assedia
aceno para ti como sempre acenei

Incansável

Homem do mar




Sou um homem do mar
e por isto velejo
num navio
sem rumo
Num navio de velas
tecidas de sol
e outonos dobrados
emprestados do mundo
Sou um homem do mar
que espanta cansaços
Para acordar
e se por

a serviço das águas

Mero remador



Quisera eu
que sou um mero remador
ter o poder de enfeitiçar
as palavras
Elas sim, me chegam
do nada
e se refazem plenas
na palma
de um poema
Não transmuto
as palavras
desato-as
de suas ciladas

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Olhar de pescador





Meu olhar de pescador
desconhece o vento
E a cada intento do azul
escrevo um verso
Se estou perto de Deus
não sei ao certo
Aqui os flamingos
desconhecem  o tempo
e planam  sobre o mundo
a céu aberto

Eu voo sob os braços do eterno
em mim tão perto
e obscuro

Desencontro


Adotamos o silêncio
e sua  linguagem
como uma sentença
para esquecer
Adotamos os navios desarrumados
do cais
guardamos as cartas 
os e-mails
e eu percorri sem ti as estradas 
aterradas do mundo
Nada acusa o semblante
do nosso desencontro
Nem as ruas
sitiadas  
ou os cômodos retirados
às pressas da cidade solar
onde amamos