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sábado, 2 de dezembro de 2023

Acasos

 

Tudo flerta com o acaso

A idade em que tinhas a eternidade

o amor que declinou e apagou teus passos

Os erros certos

os acertos errados

Em tudo o acaso te tocou com sua cruel

pegada

Ao chamuscar esta noite 

incansável

e fazeres acreditar

em todo acaso



                             Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                              Ed. 7Letras





sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Constatações

 Meus olhos que tudo observam

 não viu o que me disse o tempo

 Agora acampam em meu olhar

 as palavras que não aconteceram

 o não dito do curso de um rio

 o rigor da noite  a assombrar

 seus passageiros


                                   Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                   ( Ed. 7Letras)





Autocrítica

 Me perdoem eu me precipitei

 dormi quando não era preciso

 esqueci o mundo, suas consequencias

 desdenhei a multidão de avisos


 Hoje sonho e é um vício

 nas mãos as pedras do caminho

Me perdoem esses sais

os precipícios

eu quis me exaurir 

no infinito


                           Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                (Ed 7Letras)

 


Extinção

 Também os poemas serão extintos

 suas almas desamparadas se calarão

se o ultimo leitor calar-se

Sob um céu de aves em formação

também seremos extintos

se as palavras como os pássaros

de nós esvoaçarem


                                 Do livro  de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                           ( Ed 7Letras)


                                                        




Dezembros

Dezembro se exaure

mas quando os poemas findarem

a noite se fará um sudário

Um menino libertará um pássaro

mas ninguem verá seu desacato

A noite agora é um canteiro

onde em vão nos despojamos

dos cansaços





Menina Solar ( Ana Carolina)

 É uma estrela cadente

uma mulher solar

De perto uma menina

vestida só de luar

Assim como as sereias

que regem as águas do mar

Fez ela em meu coração

por não podê-la abarcar

essa dor que não se encerra

sempre a passar sem passar


                                     Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                                      ( Ed 7 Letras)

Escape

 Vou para uma pequena cidade

 onde os poemas encontrarão

 as grandes cidades do coração

Vou para uma pequena aldeia

onde os poemas residirão em mim

como oração


                          Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                         (Ed 7Letras)


Navegação

 É propriedade do mar

deixar que de si saltem as águas

e as canções dos pescadores

que nele abriram caminhos

É sua propriedade

calar-nos diante de seus desatinos

O mar é a pátria dos meninos

que abandonaram os veleiros


                                    Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                                      (Ed 7Letras)

Rédeas das vida

 Os poemas me mantém 

 e em seus caminhos me enredo

Só pego as rédeas da vida

quando navego no incerto



                        Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas

                                                                        Ed 7Letras


 


domingo, 19 de novembro de 2023

Mar adentro

 

Mar adentro

 

Como procuração trouxe o mar

para as grandes estiagens

que viriam

e por isso para sonhar

tenho barcos, enseadas

as tardes abrasantes

desses dias

 

Como procuração tenho o mar

que me segue à minha revelia

 

 

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Jornada


 

Meus silêncios me carregam

como os ventos levam as jangadas

que às vezes chegam ao destino

e às vezes a quase nada

 

E como todo silêncio

que oferece jornadas

também neles faço abrigo

e permanente morada 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Gaza

Sonhos e mãos amputados/São crianças
de Gaza vencidas/pelo mundo que lhes chega/Não foi
assim em Hanói/Auschwitz, Dresden, Guernica?/
Dormem os meninos de Gaza em travesseiros de pedra/
esta é a canção de ninar , que lhes reserva o planeta.

 

Conselho na praia

 Não aplume as velas das jangadas

 deixe o vento do mar cumprir esta jornada

Pois elas tangenciam e colhem o sal do mundo

e tu só tens os remos das palavras

Portanto não afronte os horizontes

pois eles são a morada das águas

e se esses vento hoje salgam os dias

amanhã te darão uma enseada


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Intenção

            Eu pisava no firmamento e chovia

Alegorias de cães quebravam a ordem do dia

Os chumaços dos avisos que eu derramei

pelo tempo, passaram a me nomear

sem me dar conta, sem acatar contas

Nobre é esta relva em que me deito

na contramão do azul. No leito 

dos últimos dias.

Foi quase uma intenção

sacrificar os pássaros

Enredos

Traziam com as redes

os peixes e a quebração da aurora

e este era sempre o enredo

de suas vidas caladas


No mar que não tem cabelo

nem cercas em suas jornadas

traziam para salgar

o que o mar ofertava


Usando na salgação

suas vidas já salgadas



 

Condomínios

 Já não são prédios, mas tendas de cimento

Nos condomínios falsas  alforrias

Acordo em um grande país

sitiado à luz do dia

Elevadores

 À noite os insultos arrefecem/ 

Os elevadores rangem submissos/

Gemidos renascem/ 

Não há  salvação possível/

Nenhuma intenção 

de fuga/ 

Ao longe a exaustão do mar


sábado, 11 de novembro de 2023

Versões

 


Cuido da tua versão diante de mim

mas estás tão perto, a tua boca. A tarde

molhada de frágeis fantasias errantes.

Álcool, tango, militancia civil desenga-

nada. Por mim tu ficavas nesta cama

aclimatada,para este jeito de estrangeira

aconchegada, E no mais teu seio de

passageira do meu amor

 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

 


TERRAÇO DAS ESTAÇÔES


                         Livro de    Francisco Orban


                                              2008  



Dezembro

 Dezembro não pertence mais as águas

agora é só uma notícia

uma casca da madrugada

descida da árvore do tempo


Dezembro não vem mais com o vento

e em minha pele trava embates

com as marcas de outras estações


As palavras ancoradas nas marinas

de Março

também acolhem dezembro

Só pelo hábito

de afagar seu rosto


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Precário destino

 Há muito que o mar me trouxe

 como pele suas algas

Os ventos batem afoitos

nos cascalhos do meu rosto

Movido por um Deus mudo

sigo atento pelas dunas

do areal que ficou

do que um dia foi só água

Há muito que o mar me deixou

como saga seus navios

e suas escunas brancas

com as tarrafas da esperança

Das coisas do mar e do mundo

eu sou tecelão e causa

fazendo com as palavras

o que os homens fazem aos hinos

Seguindo suas calçadas

perscrutando seus caminhos

dou um sentido maior

ao meu precário destino

catando búzios do mar

como acordes espalhados

neste areal de silêncio

onde estrelas fazem

pausas


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Mar e noite

Estou aqui

onde o vento traz

a noite

e há lendas

e almas que escutam

Aqui, entre os tambores

dos versos

sob a lua nua

Aqui 

tocando a face 

salgada de uma estrela


Aqui nesta noite

regida pelas sinfonias 

leves

E o que há de novo

entre o mar 

e a treva


Nada

além da palavra

árida

e incompleta


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Face secreta

 Lido com a face secreta

do mar

aqui as pedras secam

sob o Outono

A sombra de um poema

fica

como saga de navegações

A cerração do verão sobre

as certezas

A pele da aventura

sobre o corpo 

da noite




Lido com o hálito

de uma estrela

e seu sentido a iluminar

meu rosto


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Esta vida

 Para ter esta vida

sem eira nem beira

e descumprida

perfilei calos

sob o olhar do luar

replantei cactos

sob os músculos do dia

E os signos do mundo

se tornaram minha companhia

Eu que era só os vestígios

de um homem

Me tornei rei

sob o manto 

de um sonho


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Inventário do Outono

 Navegaremos por cidades perdidas

 Com o bairro inesperado dos dias

faremos o inventário do outono

Olhando as estrelas a velar nossos

sonhos, resistiremos


E ombro a ombro

com nossas vidas descalças

inventaremos nas calçadas da noite

O escape do nosso degredo


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Você

 No dia em que vi você, o equilibrio e o caos 

se encontraram no mundo. Percebi que os peixes 

se aproximavam, o sol me acompanhava e todas

as pedras ficavam mudas, porque você as pisava.

Vi que os caules dos poemas ficavam sólidos

com sua presença feminina e sua boca gerava contro

versias sobre a existência de Deus. Você era uma menina

que pisava sobre vaga-lumes incautos, e o seu perfume

era o das fadas hurbanas e palavras eram pouco para

desvrever você. Neste dia percebi que há um amor

que nada espera e se basta


Tempo

O Tempo é a estação de dezembro

onde ventos soam imberbes

e em seu convés habitamos

como num rápido outono


E nesta viagem em que estamos

momentos são sedimentos

e os suprimentos que temos

são das colheitas dos sonhos




Lampião das palavras

 Espreito as pétalas do poema

 denso de noite e agonia

 Nele residem acesos

 nacos de sabedoria

Nele fica a antiga tessitura

da palavras que em mim

ainda restam

Espreito o que fica do poema

que guarda em seu caroço 

a tez do dia


Espreito este poema

em busca do que fomos antes

das mágoas

Antes de acatar espurias leis

que desataram a tez da madrugada

Antes de apagar

o lampião da palavra


o livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )









Cordas do momento

 Um homem feito de vento

 andava sobre a corda dos momentos

e nada sabia da água

e nada sabia do tempo


Um homem feito de água

rastreava a madrugada

E nada sabia de si

do andar de sua magoa


o livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )

Calsada das horas

Salta a lua na noite. Tudo é a imensidão do agora

Aqui estou no epicentro de um rio. Mas a mão de uma 

menina me busca e me leva para a calçada das horas, onde

sinto a tez das águas. Ela me diz dos caminhos do mundo

onde a esperança desagua. No meio da chuva estava o amor

como uma granada calada. Levou-me pelas ruas do tempo

onde os pioes e as palavras dormem ainda em estado nulo

Salta o crepúsculo sobre muros e brotam poemas que se 

guardam. Ao ir-se com um beijo em meu rosto me diz que 

os abismos, já foram canções descuidadas




 

Horizonte

 Eu estava só

 e as plantas cresciam 

sob o alísio

Eu namorava a alma

das estrelas vagas

sob a febre da noite

e das águas


Eu estava só

e tudo estava só comigo

assistindo à grande queda

do horizonte

sobre a claridade

das calsadas

Vinho da matéria

Eras o vinho da matéria

e eu andava  perto de ti

com uma rosa de sól

nas mãos


E o mundo tinha

corredores brandos

e teu rosto

me indicava

o caminho 

do mar 


 Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )






Presença de água

 


Porque estive em tua presença

as águas do pensamento nasceram

Porque beijei tua boca

a canoa das horas parou

Porque era o mar e o sol

sob a chuva e o vento

Porque um abismo de facas

apagou-se sem deixar dor

Porque amanhecia quando

tu chegaste

e uma lua gigante

pousava nos ramos

da tarde


Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )




Há quem diga

 Há quem diga

que o nosso amor foi como o mar

com infinitos horizontes

onde nos deitávamos

cingidos por sua fala salina

com marinhas em torno de tudo

que nos dizia respeito


Há quem diga

que foi o mar que nos gerou

quando pisávamos incautos

os seus tornozelos

de água


Há quem diga 

que com o mar

aprendemoa a nos afagar

e a entoar com suas canções

a oração que nos fez navegantes


Há quem diga que foi o mar

o nosso mensageiro


E todos os poemas

são traduções

de suas águas 

e veleiros


Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )


Caule das canções

São redes de noites o que chega

Com a areia dos poemas nas fendas 

no rosto

São faces calcinadas o que surge

vindas dos caules das canções guardadas

Sáo vagas palavras o que refaço

sob o compasso da espera

São totens largados o que resta em cada 

rua sem nome

Em que notícia ficou

o teu sorriso?


Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )

 

Elisabeth

 Por que o amor tem tantas palavras

quando deveria ser só um rio.

Por que tantos tratados

quando tudo só deveria ser

o incêncio doce dos teus braços

Ando pelo silêncio do mundo

diblando os mesmos cansaços

Como um barco adernado sigo

à margem do teu sorriso

e em mim a pergunta sem sentido

Por que o amor tem tantas palavras

quando deveria ser só um rio?


Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )



Fora dos presságios

 Outubro está solto. Entre as unhas a pele

do teu corpo. Também as garrafas que joguei 

ao mar não voltaram com o teu nome em

um velho verso. Não voltaram e fizeram deste 

ato, um jeito de navegar. Também naveguei de mim

Para longe do que sou e do meu amor por ti.

Para os territórios da renúncia, onde moram

os viajantes da espera. Isso me soprou um dia 

o mar através de um dos seus mínimos seres.

Um búzio expelido das águas, revestido por

canções de água e que  ainda levo aos ouvidos, 

a sussurrar você


 



Tarefa maior

 


Incubir-me do mar foi tarefa maior que meu sonho

Nisto falhei e um desastre me acompanha pela vida.

A sombra luminosa de um poema me recupera.

Nas suas dunas eu cresço, pois conheço seus endereços

ruas e vilas, onde as palavras me levam. Sou do mar e também 

habitante das náufragas paisagens. Nas costas das palavras

esculpo a senha dos habitantes da noite. Agora quebro 

os ossso da matéria e o que ficou do mundo.

Deito-me sobre a palha dos poemas emigrados

das metáforas incertas. A lua próxima ao teu rosto

te espreita. Teus seios  apontados para o meu delírio 

me afagam. Sou o sonâmbulo retornado ao dia


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )




Ao relento

 O que sei dos cavalos

ao relento

desabados dos verbos

alçados ao vento


São os sonhos do mundo

seus caminhos

São braçadas na noite

seus galopes?


Para além dos violinos

e dos sonhos

há um reino onde  pernoitam

meninos

exilados das palavras

e dos rios


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )




Dessemelhança

 Enquanto os pássaros

equilibram-se nos vãos

da madrugada

Os homens cortam 

o tronco dos sonhos

e passam a pernoitar

no nada


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )


Ofício de artesão

 Navega entre as palavras

meu ofício de artesão

Imersos em rios

minha alma

de menino


O arrastão das horas

pegou de surpresa o amor

Meu olhar de pescador

só reteve a dor

e esta rede com que pesco

o destino

Enseadas

Navios do mar

Minhas enseadas insones que deixei

largadas ao relento


Navios do mar

Já tive o tempo do mundo

e me escorreu pelas mãos

como as luas que plantei

em tuas pátrias de vento


Hoje toco com os dedos

a tez invisível de seus dorsos

de onde advém a matéria salina

e sem rosto

com que teço suas sagas


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )






Árido rumo

Sinto o lento caminho da luz

Pássaros dormem na noite em vigília

pelo mundo

Em mim jaz uma palavra seca

tirada antes da hora de seu rumo

Sinto o lento caminho da luz

pisando as pedras de um árido rumo

além dos cercados as rosas murmuram

contra o silêncio dos muros


(Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )


Migrações

 Eu não me lembro 

desses navios

esculpidos pela noite

Longe da terra

e das migrações 

do mar


Eu não me lembro

desses abismos

no coração


Navegar foi minha

forma

de pertencer

à imensidão        


                                 (  (Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban )






Avesso dos versos

 




 

Velejo pelo avesso de um sonho]

com os apetrechos 

do que resta, vindo do convés de um sonho.

Velejo pelo avesso dos versos

e ponho sobretudos e gravatas

e sob as estrelas da noite

acolho palavras cancinadas.


                       (Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)





Esta manhã

Esta manhã não tem um

plano

fora seu outono

Esta manhã tem o visgo

de outras manhãs


Esta manhã tem

o pouso dos navios sem rosto

O Chumaço das águas

e o sopro dos avisos


Esta manhã tem o caos

de uma varanda aberta

e a lage anônima

de um poema


                                 (Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)



Pele das palavras

 Haveria falas 

neste mar 

tatuado na pele

das palavras


Haveria luas

rios desaguados

no grande acampamento

da noite


Haveria noites

em que estrelas

sitiariam as águas


Haveria escuta de horizontes

dentro da ventania


E a grande seca se diluiria

com o vaga-lume dos versos


Faria sol 

nos manguezais do agora


  (Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)


Mar Alto

O mar alto

e a seca nas almas imersa

E os latifundios da noite

embrulhado nas almas dispersas


                                                    (Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Caminhante

 Caminhava sob a grande orquestra da noite

enquanto estrelas amenas

dos pés de páginas dos poemas

uluminavam seu rosto


                                   (Do livro "Terraço das estações"

                                    de Francisco Orban)

terça-feira, 18 de julho de 2023

Cerco

Declínio da aurora

 

Parece o declínio da aurora

mas é uma cidade amparada

entre estrelas cortantes

e o cerco das madrugadas

 

E buscando suas ruas

só chegamos no agora

a nos deparar com os cacos

do que foi sua arquitetura

 

Parece uma grande cidade

com luminosas estradas

mas é só a vasta orla

que um dia concedeu nado

aos nossos sonhos alados

  

Trapezistas


 

O tempo escorria aberto

como um rio incessante

De nós se iam os dias

em fuga como enxames

Subíamos por seus andaimes

como trapezistas breves

tal qual inquilinos errantes

de um ignorado plano 

Tarrafas

 


 

Quantas palavras pesquei

no indizível

Para viver eu segui

os acenos do mar

e tentei alardear

sua conspiração com o azul

sua sujeição à aurora

e açudes imprevisíveis

Mas para achar a radiância

me fiz valer da poesia

Ela me traz os barcos

que me levam às dunas

do sagrado

Redes

 


 

Estes navios não seguem

o curso de um rio

Enroscados nas redes que os enredam

não ousam sequer pensar-se

como veleiros passageiros

No descampado mar em que desaguam

não se dão conta que a si mesmos retornam

ao velejar pelo acaso

do que pensam ser ensaio

mas que já é destino

 

Liturgia

 


 

Vi que a claridade tinha

outra liturgia

e ela era muito mais

que o alvoroço do dia

e seus matizes da luz

nosso desejo acendia

de com as aves partir

mas sem dispor  da alforria

com que se fizeram de vento

acima do firmamento

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Comensal das águas

Então foi o mar que me trouxe as palavras

e eu que era um menino de vento

a seguir barcos e enseadas

tornei-me comensal das águas


                                     

sábado, 1 de abril de 2023

Alfabeto dos bares

Este alfabeto não me fala

de seus signos esquecidos

Dele só resgato

a vaga geografia dos bares

inacabados

Sua escrita não se refaz

assim como a dos livros náufragos

e de seu texto só decifro

o ocaso de um sonho extinto

a não me permitir conjugar seus verbos

a me manter no exílio

do sentido de seus versos


Madrugada adentro

 Estávamos estressados

 pelo acasos do tempo

descendo o rio das horas

pelas madrugadas adentro


Em busca de um país

ao qual nunca logramos

constituído de águas

e das cercanias dos sonhos


Com nossas canoas refeitas

com a palha dos versos mudos

e as mãos nas redeas do incerto

onde vislumbramos oceanos

O Alfabeto das águas

      

               Não sou eu  que escrevo o poema

               mas este inquieto espírito alado

               desgarrado das ánforas do infinito

               aqui há muito tempo a acompanhar-me


                Não sou eu que o escrevo

                quando o mar bate em mim com seus costados

                e me oferece dos buzios seus enredos

                e águas sussurradas


                 Não sou eu que o escrevo

                 mas este ente sempre inalcançável

                 que me fala pela alma dos barcos

                 e me concede paisagens

                 para logo transmutá-las em estiagens 




Remo e harpa

Se para ti palavras são veleiros

então elas te darão retorno

Com elas poderás remar

pelas grandes dunas do invisível


Se cada palavra for também

remo e harpa

terás então as tarrafas

para pescar a encantação





sábado, 25 de março de 2023

Cesto de buzios

 


As jangadas já não me seguiam

Sob o afago das águas

os crepúsculos conspiravam à minha revelia

Um velho com um cesto de búzios

me alertara

para não me encantar com o mar

navegar mais a noite que de dia

e jamais andar na contramão dos versos

E assim fiz

ganhei uma insolação de estrelas

e seguidores incautos 

que viram em meu caminho

uma forma de alforria 

Ruas

 Esta rua sempre esteve aqui

 e nos esperava com suas calçadas

 alagadas de madrugadas

 Sempre mesmo antes de existir

 ela já se plasmava no sonho de

 algum passante

que a pressentiu e a sonhou

infinitas vezes

para que ela assim se erguesse

feita de sonho e jasmim


 


quarta-feira, 8 de março de 2023

Menina solar

 É uma estrela cadente

uma mulher solar

De perto uma menina

vestida só de luar

Assim como as sereias

que regem as águas do mar

Fez ela em meu coração

por não podê-la abarcar

essa dor que não se encerra

Sempre a passar

sem passar


segunda-feira, 6 de março de 2023

Redeas da vida

Os poemas me mantém
e em seus caminhos me enredo
Só pego as rédeas da vida
quando navego no incerto

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Conselho na praia

 Não aplume a vela das jangadas

deixe os ventos do mar cumprir esta jornada

Pois elas tangenciam e colhem o sal do mundo

e tu só tens os remos das palavras

portanto não afronte os horizontes

pois eles são a morada das águas

e se esses ventos hoje salgam os dias

amanhã te darão uma enseada


 ( Do livro "Paiol das águas", Prêmio Marcos

Vinícios Quiroga, Primeiro lugar no Concurso Interna-

cional de Literatura UBE RJ 2022). 

domingo, 25 de dezembro de 2022

Bala Perdida

 A bala é um ser quase mudo 

que se cumpre em um estampido

ferindo seres e falas

e a harmonia do mundo


A bala com seu plano sujo

não faz concessão a nada

resvala pela madrugada

mas só para abrir uma vala


E a madrugada que a acolhe

que afaga vento e estrela

não sabe que ela é em si

um erro da natureza 


Da natureza do homem

que a produz e consome

que a adestra e a solta

como cachorro sem dono


domingo, 18 de dezembro de 2022

Ana Carolina

 As cidades se abriram diante

do teu abandono     

E as ruas em que te procurei

te acolheram para mim

Só em pensamentos te percorri

E só entre acácias

avancei sob as estrelas em ti 

 Se não foi realidade

- esta dama fugaz e arteira-

melhor assim

Porque assim em pensamentos

tive-te sempre

e assim em pensamentos

me escolheste e te escolhi


sábado, 8 de outubro de 2022

Incumbência

  Incumbir-se do mar foi tarefa maior que meu sonho. Nisto me enganei mas a sombra luminosa de um poema me leva Nas suas dunas eu cresço, pois sei dos  endereços ruas e vilas onde as palavras me cercam. Sou do mar e emigrante de suas metáforas incertas. Nas costas das palavras esculpo a senha dos habitantes dos sonhos. Agora talho na matéria da noite o que restou do mundo errante. 




             Do livro "Terraço das estações" de Francisco Orban

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Branquinha

Não que fosse do mar 

a tez da tua pele

Os mapas para te achar

perderam-se pelas

estradas 

não as reais encontradas

nem nas quais velejam

as almas

O mapa para te achar

perdeu-se nessas ruelas

na argila do teu silencio

distinto do oceano

e tudo que vivemos









....



segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Para uma ativista

Queria que soubesses da força do meu amor.A
religião que criei para te amar sobre todas as coisas.
Deus diz que é pecado, mas eu sigo assolado pela
tua carne.Nesta noite em que a colheita das estrelas
será feita por nós, vou já liberto por amar-te. Pois estás 
na centralidade do mundo, só por seres mulher, e a
 humanidade falar em teu ser  

Veleiros calados

 As palavras que invento

não servem para encontrá-la

pois são somente as jangadas

do nosso amor desgarrado

largadas pelo mundo

como veleiros calados

domingo, 21 de agosto de 2022

Redes

 

Estes navios não seguem

o curso de um rio

Enroscados nas redes que os enredam

não ousam sequer pensar-se

como veleiros passageiros

No descampado do que seria o mar

não se dão conta que é a si mesmos que retornam

ao velejar pelo acaso

do que pensam ser ensaio

mas que já é destino

sábado, 6 de agosto de 2022

claridade

 Os poemas são pássaros

de claridade
que carregamos
nos bolsos da alma

Pernoite

 





Guardo para mim o silêncio

e as vezes pernoito 

em suas águas

Eu por tão pouco e por nada

guardei das palavras

as almas

Mero remador



Quisera eu
que sou um mero remador
Ter o poder de enfeitiçar 
as palavras

Elas sim me chegam do nada
e se refazem plenas
na palma do poema

Não refaço as palavras
desato-as de suas ciladas


Comensal das águas

 




Então foi do mar que me veio as palavras 
e eu que era um menino de vento
a seguir  barcos e enseadas. 
tornei-me um  comensal das águas