Na seca o silêncio
com sua orquestra de sombras
bichos secretos resmungam a língua
de Canudos
São assombrações, são homens
os que se arrastam no chão?
A noite desce quebrada sobre cactos
de água
onde se arma a palavra agora
em forma de bala.
São assombrações, são homens
os que se arrastam no chão?
São vaga-lumes errantes
ou são os filhos do mundo
que já nasceram armados, com a paixão
amolada e a luta como saga
O sertão vai virar mar e o mar vai virar tudo
na mata o silêncio fala e os sonhos pernoitam mudos
e todo o gado é escasso, na noite já devassada
onde a linguagem é de luta, e ama-se quase ao relento
das casas quase senzalas, de pedra, de barro e palha
A vida é uma pétala breve, faminta e quase vedada
que logo será extinta, como outras, como tantas, como
mandacarus fraturados, refeitos e fraturados,
na madrugada densa assim como a esperança,
refeita e fraturada.
Onde há dúvida há cansaço e a dúvida nada gera
É necessário lutar, cumprir nesta terra a saga
que o sertão vai virar mar e o mar uma enseada
aqui nestes descampados, onde só bala deságua
Na mata o silêncio cerca e os combatentes são poucos
para amordaçar a morte e sangrar dela o veneno
A morte é um ser arisco, que pega homens e bichos
mas antes primeiro cala os sonhos mais invisíveis
A morte pisa em silêncio, sem se anunciar, calada
abraça e depois dá o coice
A mata tudo espreitava, com olhos de vidros nas água
anônimos, demoníacos, disseminado nos bichos.
Do livro de Francisco Orban, Paiol das águas
( Ed. 7Letras)
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