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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Laje da madrugada



Na laje da madrugada
cumpro o poema
roto feito minha vida
perpassada por tantos caminhos
E das calçadas da alma
o poema luta para nascer
não feito ente mas um ser de asas
e muitas madrugadas
por percorrer

Na laje da noite esculpo o poema
cáustico feito eu que o habito


E com o poema
tenho de novo
a procuração dos navios
a rota de janeiro
e o gosto de renascer



Navios



O caminho da extinção não dispensa os navios,
que neste mundo coabitam com os homens.
Com seus conveses largados
No mar alto do abandono

O corpo de um navio quando morre torna-se
a resina salina de um sonho
E com seu  tombadilho adernado vaga
no assoalho do nada velejando

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Escultor de palavras



Nunca mais voltei à infância
e sua comunhão com as águas
onde me plantava para ouvir
o ventre da madrugada

Guardei as mãos de meu pai
que me levavam aos circos
Depois não mais as achei
nem os circos que faziam
me sentir menino e rei

A vida é rio sem hora
com seus ventos e estrelas
mas sempre levamos dela
o que dela não desbota 

A vida é uma cadeia
da qual só se sai sem volta
mas sempre guardamos dela
o que dela incendeia

Saí do destino do tempo
como um menino de vento
mas o sentido do tempo
não me foi dado por horas
pois  seu absinto lento
só me chegou muito tarde
quando  já não pisava o chão
mas as terras da poesia
com sua música e pão

Viver  me fez me cumprir
pois fui escultor de palavras
Da infância trouxe o visgo
e a levo  para toda parte
em minha memória de circos

Assim como as mãos de meu pai
que  alfaiate de almas
que me deu um terno cinza
com  mangas de madrugadas
mais  Carlitos que bom moço
mais menino que senhor
mais sonhador que doutor

E esse terno me cabe
e com ele ganho estradas
que não são feitas de pedras
mas da voragem de asas



Signos

Sujeitos/advérbios

Signos de ar
de noite desato
versos
que fogem
para o luar

andam pelo telhado
zombam das minhas
metáforas

esses sujeitos
advérbios
adjetivos ingratos
na voz do tempo
se encontram

mas quando os busco
me escapam


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O poema de amor



Muitos poetas te amaram
mas eu te amei muito mais
porque estavas
no coração selvagem das estações
do mundo
e as amarras que nos apartavam
sob o teu olhar desatavam-se
e tudo era o nascimento
da encantação

Muitos outros te amaram
mas eu te amei com meu amor sereno
e pousei uma flor
na palma da tua mão
E plantei um beijo no teu sorriso
e tu cobriste de doçura com os teus gemidos
o que era o início do mundo

Muitos te amaram
mas só eu segui contigo o caminho das águas
quando meu amor louco ressoava
e fazia debandar os navios

Sol das esperanças
mar dos horizontes amarrotados de barcos
Aqui estou assolado pelas multidões de dias
e dos caminhos que encontrei pelo mundo

Ouça meu amor este poema
agora que o crepúsculo nos assedia
aceno para ti como sempre acenei
Incansável





Vantagens de um pescador



As vantagens de um pescador
são muitas
As juntas de seus ossos
não se cansam
de tanta escuridão
Pois este pescador
trabalha com as ruas
Sabe que a matéria
de seu arrastão
são as palavras
que se esqueceram
de acontecer



Pés-de-página



Caminhava sob a grande
orquestra da noite
enquanto estrelas
amenas
dos pés de páginas
dos poemas
iluminavam

seu rosto

jarros postos na manhã



Os jarros postos na manhã
improvisam os pássaros
os navios ao acaso
improvisam os sonhos

Eu me improvisei
encantado
ando por aí
reconhecendo em mim
um rei que sonha

As palavras me espreitam
por toda parte
os alaridos dos signos
me acompanham


sábado, 23 de novembro de 2013

ônibus 614

... O ônibus 614 desceu a rua Rocha Miranda
e viu Cristina Maria feita de adolescência
e passou por dentro do tempo
entre as árvores desencontradas da esperança
pela experiência de ser guiado por uma estrela
que também por nós se guiava
pelos corredores azuis da noite
com o mapa do mar no bolso
com o mapa das águas no coração
Mínimos meninos
pisando nos trilhos de um trem que ia da alegria
a Itaguaí
mas que foi desativado
como foram oceanos
bichos palavras amores amigos
lutas violões ventanias


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Seca



Não havia lagos, mas o silêncio. E um latifúndio de acasos submersos. E uma estação fria, sem mapa. E a seca dos versos não escritos. Não havia tempo, mas um território de ventos e verbos. E uma pequena canoa, onde desciam pela grande noite, levando o livro das utopias breves. As que movem o mundo e se ausentam.

Migrações


                 
Aqui passaram
as grandes migrações
como do mar as aves
de seu tabuleiro azul
Do mar vi vidas de areia
revoarem sonadas
de suas províncias de águas

Do mar veio isso que nos fala
essas jangadas de vento
Dele guardo as rotas dos navios
e as redes abandonadas
dos navegadores cegos


Não te aguardo, nem me aguardas



Já não te aguardo
foste levada
pelos navios de agosto
e no ocaso da noite
escolheste
a fúria dos
acontecimentos

Já não te aguardo
derramaram-se as palavras
e o silêncio agora é esta mesa
e o cansaço agora é esta sala

Não te aguardo
nem me aguardas

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Esta manhã



Esta manhã não tem um plano
fora seu outono
Esta manhã tem o visgo
de outras manhãs

Esta manhã tem o pouso
dos navios sem rosto
o chumaço das águas
e o sopro dos avisos

Esta manhã tem o caos
de uma varanda aberta
e a laje anônima
de um poema


Relógio



Que relógio é esse
batendo às cinco da tarde
entre as folhagens do tempo
e as ramagens do nada?

É a noite que o fita
e os homens o habitam
em sua febril batida
nas avenidas das almas

É a noite que o tece
em suas horas cansadas
onde a gestão da vida
em nosso rosto se talha


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Espreita

Espreita


Espreito este poema
denso de noite e agonia
Nele residem acesos
nacos de sabedorias

Nele sinto a antiga tessitura
da palavra  lapidada que resta
Espreito o que ficou deste poema
que guarda em seu caroço
a tez do dia

Espreito este poema
à luz do mundo
antes de acatar rígidas leis
Antes de desatá-lo
da tez da madrugada
Antes de apagar
o lampião da palavra

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Caminho da extinção



O caminho da extinção não dispensa os navios,
que neste mundo coabitam com os homens.
Com seus conveses largados
No mar alto de um abandono

O corpo de um navio quando morre torna-se
a resina salina de um sonho
E com seu  tombadilho adernado vaga

no assoalho do nada velejando

domingo, 17 de novembro de 2013

Lodo do tempo



Sim parecia o poema que eu buscava
Arrancado das vísceras da noite
encharcado de estrelas incautas
torrado no lodo do tempo
sob o vento insano do momento

sábado, 16 de novembro de 2013

Estratégia

Estratégia



Não tenho uma estratégia

para falar com mar

Para lhe contar de tanta saga

de toda a nossa esperança

Nós que habitamos

suas dunas de água

a sua imensidão azul

Enquanto seres

de  orlas não dominadas




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Casebre das estações



Só no meu peito
- casebre das estações
perdidas -
guardei as hastes
dos poemas
arrancados

Procuração do mar



Artesão dos signos
procurador do mar
O ar e seus inquéritos
fraudados
A vida e suas alianças

frágeis

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Dessemelhança

Enquanto os pássaros
equilibram-se
nos vãos
da madrugada

Os homens
pernoitam
no nada

Canção antiga



Por muito menos guardei em mim o mar. Com as juntas dos ossos partidas, refiz-me pouco a pouco das palavras de ordem de uma canção antiga, que falava do esperar. Não sobrou muito depois. Uma vez despojado desses versos, descobri que a encantação me alimentava. Entre as hordas de um  país feito de  noite,  a encantação fora um guia não muito prático para as coisas mais próximas da realidade. 


Hoje, irmanados, nesse ônibus parador, que caminha sem nenhum mapa por um país chamado mundo, penso nesse roteiro vagabundo, do qual não guardei cópia. Lá fora, um horizonte de águas cerca e toma as últimas cidades de nossas biografias. As mesmas cidades em que um dia fomos invencíveis, quando  portávamos em nós a força do touro e a magia dos que se alimentam de transes, como uma manada de sonhadores, em harmonia com seu rebanho.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Que o mar cumpra seu papel


Que o mar cumpra seu papel
com seus búzios que a todo momento
me chegam com seus  sonetos de vento
(casulos empedrados pelo tempo)

Que o mar cumpra seu papel
ao trazer-me o sentido do infinito
seu país azul amarrotado
e que levo aos ouvidos desatentos

Conclusões



 

      Espero dez anos depois
em um dia qualquer
de uma primavera  perdida
ver o verde irremediável das plantas
e das minhas esperanças
Dez anos depois
        ver o mar bater enfim
        sob as trancas vedadas
Espero dez anos depois
        ver chegar  às janelas cerradas
e despovoadas desse tempo
os acenos de Carlitos
Já que  ninguém mais sabe
que as armadilhas estavam armadas
que os versos seriam
documentos apócrifos
e que tudo o que fomos seria nada
sem a poesia e sua pátria

Depois dis

                                          





segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Galhardetes



Tudo está vivo na noite
até o brilho das estrelas
que pontuam
a escuridão
como galhardetes
no céu
acalentando a lua
e ébrias 

de imensidão

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

De que são feitos?

De que são feitos esses navios
que do ofício de existir não trazem os mapas 
Descidos do mar sem fim 
para a palma das palavras?


De que me servem se não me dizem suas jornadas?

domingo, 3 de novembro de 2013

Palavras calcinadas

Velejo pelo avesso de um sonho com os apetrechos do que resta, vindo do convés de um Outono. Velejo pelo avesso dos versos e ponho sobretudos e gravatas e sob as estrelas da noite acolho palavras calcinadas.

Marina - 1975

Marina    -    1975
Não é porque dormes
Marina
dentro de um país
sitiado
que esquecerei tua luta
nem os versos itinerantes
nem os bancos das praças
onde dormíamos
porque não havia
mais endereços

não é porque caiste 
neste cotidiano das palavras
que esquecerei
do espírito do mundo
pregado na nossa pele
quando o mal era uma canção
sem versos

e o bem o silêncio ao longe

sábado, 2 de novembro de 2013

Presença de água



Porque estive em tua presença
as águas do pensamento nasceram
Porque beijei tua boca
a canoa das horas parou
Porque era o mar e o sol
sob a chuva e o vento
Porque um abismo sem palavras
apagou-se sem dor
Porque amanhecia quando tu chegaste
e uma lua gigante

pousava nos ramos da tarde

Precário destino



Há muito que o mar me trouxe
como pele suas algas
Os ventos batem afoitos
nos cascalhos do meu rosto
Movido por um deus mudo
sigo atento pelas dunas
do areal que ficou
do que um dia foi só água
Há muito que o mar me deixou
como saga seus navios
e suas escunas brancas
com as tarrafas da esperança
Das coisas do mar e do mundo
eu sou tecelão e causa
fazendo com as palavras
o que os homens fazem aos hinos
Seguindo suas calçadas
perscrutando seus caminhos
dou um sentido maior
ao meu precário destino
catando búzios do mar
como acordes espalhados
neste areal de silêncio
onde estrelas fazem

pausas

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Escultura



Escrever versos é esculpir palavras
Nada que as mãos do Outono
não desfaçam
É esculpir na pedra
até que o mármore
da palavra

nasça

Avesso de um sonho

Velejo pelo avesso de um sonho com os apetrechos do que resta, vindo do convés de um Outono. Velejo pelo avesso dos versos e ponho sobretudos e gravatas e sob as estrelas da noite acolho palavras calcinadas.


Sobrados da noite



É a noite o que nos fala
com seus sobrados
na alma
São seus trapiches
que  movem
essas cidades
de água

É a noite que nos faz viúvos
com a trilha dos sonhos
e os calos dos mudos

Somos a matéria dessa noite
e ela nos deserta e ignora






quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Na carne da vida



Palavras emergem
do açude do corpo
E as sigo
para que soltas do visgo da noite
tornem-se o pão do mundo

Não há descanso
Até que pousem na carne da vida
na música da vida

na foz dos acontecimentos

Navios

         

De que são feitos esses navios
que do ofício de existir
não trazem os mapas
Descidos do mar sem fim
para a palma das
palavras?

De que me servem
se não me dizem
suas jornadas?



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Porto abandonado



Velho outono ferido pelo país dos caminhos
por ti sitiei cidades e um porto abandonado
onde toda a dor escoava
Por ti vesti uma roupa de sobrados
sob as marquises de um sonho
E quando tudo exauria-se na noite
as almas dos poemas retornaram
como luas embrulhadas em um transe



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ladrilhos



Nas ruas da tarde
os homens sangram os dedos
nos ladrilhos das palavras
Mas ninguém sabe
que canção muda
ficou retida
que ave de silêncio
pousou no ombro
da encantação



domingo, 27 de outubro de 2013

Nas costas das palavras




Incumbir-me  do mar foi tarefa maior que o meu sonho. Nisto falhei, mas a sombra luminosa de um poema me acompanha. Nas suas dunas eu cresço, pois conheço os endereços, ruas e vilas, onde me levam as palavras. Sou do mar e habito paisagens náufragas. Nas costas das palavras esculpo a senha dos militantes da noite. Agora quebro os ossos da matéria e o que ficou do nosso amor errante. Deito-te sobre a palha dos poemas emigrados das metáforas incertas. A lua próxima do teu rosto te espreita. Teus seios apontados para o meu delírio me afagam. Sou aquele que retorna ao dia.

No coração da matéria



Quebro a máquina de janeiro
no coração mudo da matéria
pisando estrelas e vísceras abertas
Sigo sem destino
fingindo ter destino
com a alma talhada por pedras
Mas a sombra de um menino me acompanha
diz-me ser eu mesmo antes de mim
Digo-lhe da morte das baleias e ele ri
Acendemos incensos pela noite
acudindo vaga-lumes descuidados
que agonizam no chão áspero da terra
Criamos com a areia do mar a fórmula
de salvar o mundo
usando serragem de estrelas
mas tudo é um sonho
Ele deita o rosto no meu peito assolado
por uma poesia sem dono
e diz ouvir os navios da infância
pergunta-me quem foi Gepeto
pergunta-me o que é o cansaço
pergunta-me sobre sua mãe e seu pai
sobre todos os movimentos dos barcos
que vê e me mostra no horizonte
onde eu
cego pelo hábito de viver incrédulo
não vejo o que sei que lá se encontra


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Boletim de brincadeiras

     

Domo o mundo
e o mundo me cega
É um jogo
é uma luta
existir nesta terra

Ensaio rotas
arrumo rumos
e trancam as portas
Em vez das flores
nascem musgos

Eu domo o mundo
e o mundo me anota
no seu boletim
de brincadeiras

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Alagados



Alagados do destino
o mundo que não é de todos
no rosto de um menino

De pés descalços
no agora
nas palafitas das horas

Definhando sem poesia
até tornar-se só casca
do que a claridade
prometia

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Alagados das almas



Imerso nos alagados
das almas
caído nas palafitas
das vidas
saqueadas
distante das noites
fevereiras

sobreviveu
porque o sistema solar
lhe trouxe o vento

E o ofício
de traduzir o mundo
gerou sementes

E as dunas das palavras
- agora, assentadas -
nele sobreviveram


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Um poema





Um poema é uma porta aberta
Um avesso
do qual se volta
de si mesmo
E só por si só
não se ergue
Só estrelas nascem

a esmo 

domingo, 13 de outubro de 2013

Espreita

                             
                  Espreita


Espreito as pétalas de um poema
denso de noite e agonia
Nele residem acesos
nacos de sabedorias

Nele sinto a antiga tessitura
da palavra  lapidada que resta
Espreito o que ficou deste poema
que guarda em seu caroço
a tez do dia

Espreito este poema
à luz do mundo
antes de acatar rígidas leis
Antes de desatá-lo
da tez da madrugada
Antes de apagar

o lampião da palavra

sábado, 12 de outubro de 2013

Os poemas são descuidos



E não há estação de fuga
pernoite em terras amenas
Os poemas são descuidos

das horas secas do mundo

Redes de vento



Trabalhar o mar
trabalhar as mãos talhadas pelo tempo
com elas esculpo signos
tenazmente pela madrugada

Com elas movo moinhos
que me movem por países de silêncio
onde espreito as palavras
com minhas redes de vento

Esta é a função que exerço
semear na pátria das falas



Esta é a função que entendo
noite adentro com as palavras
por estações de vocábulos
e calendários de águas

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Navios desatentos



Também se matam os navios
desatentos
deitados no horizonte
com seus tombadilhos
e sonhos

Também se cometem crimes
fora da rota do vento

Por causa de um momento
- um hálito de sereia -
deita-se tudo a perder

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Bandolins



Os bandolins tocavam claros
sob brandas tardes
era o carnaval
o cheiro das águas brancas
o furor das cidades
em que crescíamos

O gosto da tua boca
nos prédios em clandestinidade

Impossível recompor estes mapas
Éramos  senhores incondicionais da utopia
Hoje somos índios demarcados
Mero acidente literário

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Pedaço de búzio





Mar:
encontrei num pedaço
de búzio
mil noites engavetadas
que eu botava no ouvido
para ter a fala das águas
e a dimensão do mundo

feito um menino maluco

ARAGUAIA

Araguaia   1975

                      (Poemas dos anos setenta)


Asa de anjo da noite
ruela de luz
sobre o mar
da lua

Me diz anjo da madrugada
onde estão os mortos
do Araguaia?
onde estão os mortos
de tantas lutas
onde estão os mortos
da ordem cotidiana?


Conte-me
anjo da madrugada
dos mortos das fábricas
e dos conventos
dos inconvenientes mortos
que voltam
para acusar  a vida vendida
para falar da moça que foi embora
e lamentar o menino
que mal nasceu




segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Leilão de acasos

De início não foi assim que eu me via, ao levar a minha pequena lanterna na bagagem das ações impossíveis. Assim eu segui as hordas e passei a me permitir um namoro proveitoso com o absoluto. De noite eu ministrava sob as estrelas o saber dos crucificados e durante esses cultos dava-me conta da presença de pequenos seres, acampados por perto. Vinham oriundos das regiões remotas orar pela terra e temiam que não sobrevivêssemos. As vigílias se estendiam por noites envoltas em um clima de grande paz. Diziam-me da existência de um criador que se tornara mortal ao se transmudar em toda vida. Ao mesmo tempo falavam-me da nossa provisória vida. Uma noite acendi a lanterna para vê-los, mas evadiram-se como num sonho, deixando uma frase tatuada em meu  braço: Extinção é para sempre. No dia seguinte  pude voltar à mais fascinante das aventuras, que é a transmutação do que somos em elementos minerais e vegetais, como pedra, mar, floresta, mantendo-nos assim, em comunhão com as almas dos bichos e das plantas, para de longe assistir ao ruidoso tumulto da experiência humana.   Francisco Orban ( Livro Leilão de acasos/ Ed Garamound)

domingo, 29 de setembro de 2013

Paraty


Paraty

Naquele momento, olhando o mar com seu dorso amarrotado pelo vento, restabeleci novamente meu diálogo com aquela cidade e seu passado. Paraty era então um lugarejo perdido de onde escoava o ouro. Suas igrejas dividiam seus habitantes: umas para os senhores, outras para as mulheres brancas, poucas para os mestiços e negros escravos.
Num mundo injusto e segregado, a cidade era assim repleta de insetos peçonhentos e de hábitos bizarros, como jogar dejetos nas ruas, sobre as calçadas de pedras trazidas de Portugal por navios. Pedras que não foram tantas quanto as de ouro arrancadas pelos homens negros , que aqui, como escravos, também de suas vidas foram expatriados.
Assim, chegamos do futuro a esta cidade pousada no azul como uma nave de luz no chão do mundo, toda feita de leveza pelos poetas que a restauraram e a reinventaram. Estes que foram os que possibilitaram a sua permanência como se encontra, assim como seus fundadores que um dia conspiraram para que ela existisse assim como uma pétala. E desta maneira a vemos agora, com os nossos olhos transmutados pelo hoje, na ilusão de que Paraty de alguma forma tenha sido sempre esta que presentemente vivenciamos. É que, naquele mundo brutal, talvez ela existisse assim, como veio a se tornar, posto que embrionariamente já existia no coração dos homens.

Francisco Orban

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Dezembro

Dezembro não pertence mais às águas
agora é só uma notícia
uma casca da madrugada
descida da árvore do tempo

Dezembro não vem mais com o vento
e em minha pele trava embates
com as marcas de outras estações

As palavras ancoradas nas marinas
do mundo
também acolhem dezembro
Só pelo hábito
de afagar-lhe o rosto

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Pensamento










"Cada homem é responsável pelo mundo todo"

FACE OCULTA






Lido com a face oculta do mar
Aqui as pedras secam sob o outono
A sombra de um poema fica
como saga de navegações
A cerração do verão sobre as certezas
A pele da aventura
sobre  o corpo
da noite

Lido com o hálito
de uma estrela
e seu sentido
a iluminar
meu rosto

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Rosto da ausência




Sempre faço o luto
da tua perda
entre as ruas inaceitáveis
do adeus
Entre as alamedas
onde teu rosto
emerge
Nos dias
em que o amor
se desencontrou
das palavras
É o que fica
no sudário onde acolho
o rosto da tua ausência

quarta-feira, 3 de julho de 2013

LATITUDES DO MAR






Perto da cidade dos veleiros
longe  do estampido do vazio
abrigo-me sob os poemas
Na mesma latitude do mar
mas nas entressafras 
do não dito
Então procuro o indizível
como se a palavra 
esta que por si se basta
fosse apenas o preâmbulo
de uma grande saga
a ser contada

sábado, 23 de março de 2013

Estratégia


                
Não tenho uma estratégia
para falar com mar
Para lhe contar de toda saga
de toda a nossa esperança
Nós que habitamos
suas dunas de água
e sua imensidão azul
Enquanto seres
de  uma orla não dominada

                   Francisco Orban

                                               22/03/2013

domingo, 10 de março de 2013

Calcários


Calcária noite
feita de costados
Deste lado do tempo
vejo
um rio com seus barcos
ao acaso
passar em minha vida
perfilados
E desse rio sou a permanência
quando traz aos meus olhos seus motivos:
os seus pomares de águas
os seus haras de silêncio
onde semeio sempre
as palavras de que me sirvo
         

                   Francisco Orban

sábado, 2 de março de 2013

Noite adentro

Estou aqui
onde o vento traz
a noite
e há lendas
e almas que escutam
Aqui entre os tambores
dos versos
sob a lua nua
Aqui
tocando a face
salgada de uma estrela

Aqui nesta noite
regida pelas sinfonias leves
E que há de novo
entre o mar e a treva?

Nada
além da palavra
árida
e incompleta

                        Francisco Orban

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

PAÍS FEITO DE ACHADOS

         Acordei com uma palavra vinda de um rio. Era o início do conto que  escreveria, não fossem tantos outros que se revezavam. Trouxe este conto para a linha de frente, afastando imagens e vernáculos. Agora, posso escrevê-lo, mas antes o mapeio com um barco, pois temo no percurso achá-lo raso, para os longos pensamentos que abraço. Munido de uma tarrafa, jogo-a nos olhos das palavras, em águas já não claras, onde a poesia e as metáforas circundam inocentes minha mente. Agora, face a face com seu teor, me emociono com seus horizontes de esquecimento, seus corredores de vento, onde somos arremessados em suas margens. Depois enveredo por um labirinto onde os deuses vedam a passagem. Lá estou dentro do conto, no âmago de cada sentido. Cada palavra surpreendida revela uma nova vida, cujo canto pode embriagar-nos e para sempre prender-nos em um país feito de achados.

         FRancisco Orban




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Pesca oceânica


                  

                                   Latitudes do mar



Perto da cidade dos veleiros
longe  do estampido do vazio
abrigo-me sob os poemas
Na mesma latitude do mar
mas nas entressafras 
do não dito
onde procuro o indizível
como se a palavra 
esta que por si se basta
fosse apenas o preâmbulo
de uma grande saga
a ser contada

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mágico canhoto


                              


Quem sabe das noites
que viajam invisíveis
nas dunas brandas do dia?

Quem sabe do transe
que me fazia navegar
por entre vidas marítimas?

Quem é o mágico canhoto
que promove os desencontros ?

Quem sabe das coisas do mar?
das coisas que acontecem
entre um homem e uma mulher.

Quem é a fada da saudade
que pousa no meu ombro?
E meu olhar de escombros
brilha.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Navios


Como tirar um navio
dos estaleiros do coração
se um navio não cabe
nas ruas da cidade?

E como drenar seus rios
com suas tardes
de  repousos oceânicos
e descansos pelas estações
dos mares?

Como tirar um navio do coração
sem comprometer
a rota de seus rumos
e seu adorno de velas brancas?

Como resgatá-lo
com seu sangue aguado
pelo afago das maresias
e seu dorso silenciado
pelas noites adernadas
nas estradas de mar
desse  mundo?

Como tirar um navio
do coração
gestado nos estaleiros
das palavras
desse breve poeta
que navegou sempre
no impossível da alma?

             Francisco Orban



domingo, 13 de janeiro de 2013

Territórios


Esse território
não tem chão
são pontes noturnas
atravessadas
nas junções dos ossos
onde a poesia
depois de triturar
a carne
persegue seus seguidores
pela alma adentro

                       FRancisco Orban


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Fora dos presságios

Moro fora dos presságios. Uma lenta agonia atiça
o retorno dos versos.
Uma flora de estrelas embaçadas rege os ventos.
Cada verso guarda uma granada secreta,
como a volta de um domingo ou uma estrela
quando então eu acolho a palavra.
Não penso quando escrevo, pois seria apagar-me.
Não penso quando vivo, pois seria a morte.
Acato as leis que afloram
delas nascem lírios.

                         Francisco Orban

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Altar dar ruas

Não foi o homem cego
que não atravessou a cidade
com as mensagens oceânicas
que ficaram por ser ditas
Não foi o topo da ilha
onde se largaram
no movimento das águas

Vidraceiro de mãos cortadas
menino ambulante com mãos de amendoim
não vendido
vendedor de cocada expulso
de seu pequeno reino
moça atirada do trem
homem sonhador morto
estatístico cansado de toda estatística

Para onde iremos depois de tudo
perambulantes das noites
entre multidões sedadas
Com os anos da inocência esquecidos
com os andaimes das horas esgotando-se

Senhor convidado para o jantar
mulher culta do olhar desolado
para onde iremos
sem as palavras
do altar das ruas?

                                           Francisco Orban

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Dezembro



Dezembro não pertence mais às águas
agora é só uma notícia
uma casca da madrugada
descida da árvore do tempo

Dezembro não vem mais com o vento
e em minha pele trava embates
com as marcas de outras estações

As palavras ancoradas nas marinas
do mundo
também acolhem dezembro
Só pelo hábito
de afagar-lhe o rosto

                            Francisco Orban

sábado, 5 de janeiro de 2013

Cercados do tempo

Escrever com dor
fere as palavras
que moram nos cercados
do tempo
Assim prefiro levá-las
às tardes onde pousa
a lua
Assim prefiro deixá-las
nas noites feitas
de vento
...
Trago as palavras
que são músicas
para os silêncios
que são falas

Longe das vozes
mudas
que são muros

Francisco Orban

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

No coração da matéria

Quebro a máquina de janeiro
no coração mudo da matéria
pisando estrelas e vísceras abertas
Sigo sem destino
fingindo ter destino
com a alma talhada por pedras
Mas a sombra de um menino me acompanha
diz-me ser eu mesmo antes de mim
Digo-lhe da morte das baleias e ele ri
Acendemos incensos pela noite
acudindo vaga-lumes descuidados
que agonizam no chão áspero da terra
Criamos com a areia do mar a fórmula
de salvar o mundo
usando serragem de estrelas
mas tudo é um sonho
Ele deita o rosto no meu peito assolado
por uma poesia sem dono
e diz ouvir os navios da infância
pergunta-me quem foi Gepeto
pergunta-me o que é o cansaço
pergunta-me sobre sua mãe e seu pai
sobre todos os movimentos dos barcos
que vê e me mostra no horizonte
onde eu
cego pelo hábito de viver incrédulo
não vejo o que sei que lá se encontra


                  Francisco Orban

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

TENAZ MISTÉRIO

         Era um segredo escondido sob o lençol da noite densa. Um único silêncio na memória de um sonho. Era um ruído sob a surpresa de pássaros, tenso alvoroço espalhado sobre o grande e tenaz mistério que lhe envolvia a vida. Pois ela chegava tão convicta de tudo, arrumada em sua graça feita de toques mundanos, que foi a princípio inimaginável vê-la despedindo-se.
         Ausente, se fez tão presente em tudo, que os meninos autuados pelo enigma caíram extenuados. Era o início da longa encantação.


                           Francisco Orban

CANÇÃO ANTIGA


Por muito menos guardei em mim o mar. Com as juntas dos ossos partidas, refiz-me pouco a pouco das palavras de ordem de uma canção antiga, que falava do esperar. Não sobrou muito depois. Uma vez despojado desses versos, descobri que a encantação me alimentava. Entre as hordas de um  país feito de  noite,  a encantação fora um guia não muito prático para as coisas mais próximas da realidade. 
         Hoje, irmanados, nesse ônibus parador, que caminha sem nenhum mapa por um país chamado mundo, penso nesse roteiro vagabundo, do qual não guardei cópia. Lá fora, um horizonte de águas cerca e toma as últimas cidades de nossas biografias. As mesmas cidades em que um dia fomos invencíveis, quando  portávamos em nós a força do touro e a magia dos que se alimentam de transes, como uma manada de sonhadores, em harmonia com seu rebanho.

                    Francisco Orban

sábado, 29 de dezembro de 2012

Que seja janeiro


Que seja janeiro
de onde emergem as palavras
içadas dos parapeitos
dos dias que aqui me chegam
e se erguem para o nada

Que seja janeiro
a foz do primeiro beijo
e também deste copo
a espantar-me de mim mesmo

E que de janeiro voltem
os comboios da infância
com seus navios perdidos  
no dorso dos horizontes

E que assim janeiro nos deixe
sem as respostas procuradas a esmo
Só encontradas nos teus olhos janeiros
e nessa enseada a que chamo de teu corpo

         




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Torniquete


No espanto deste dia
vejo sempre estas tendas
de sonhos encobertas
onde exaurido sigo poeta
para as batalhas que sei perdidas

No espanto deste dia
ando nesta rua só de ida
para o porvir que ninguém sabe
a fazer um torniquete que encobre
a sangria dos embates estelares

                     Francisco Orban

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Meus navios


Durante muito tempo quis ter a consistência dos navios. Não os reais, mas os que navegam na mente. Já que achei que o mundo é  apenas um acidente de percurso, dei aos meus navios um mar acidentado, para que pudessem velejar sob as escarpas das águas e destinos. Também lhes ensinei a língua dos horizontes para que pudessem atravessar o caos do mundo sob a lua e também um mapa medieval, para que chegassem aos mares dos sonhos. Durante muito tempo meus navios tiveram um intrigante semblante. Pareciam monumentos móveis em suas marinas distantes, a tocaiar aves ribeirinhas e amparar os pescadores cegos. Meus navios se foram e para mim ficaram as calmarias. Com elas faço inventários de areia, dia após dia.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Homem do mar


Sou um homem do mar
e com ele velejo
num navio
sem rumo

Num navio de velas
tecidas de sol
e outonos dobrados
emprestados do mundo

Sou um homem do mar
que espanta os
cansaços

Para acordar
e se pôr
a serviço das águas

                                    Francisco Orban

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mapas


            Seria impossível a noite se os versos soltos não a deflagrassem. Encontrei isso escrito em uma pétala. E depois num búzio desses empalidecidos pelas águas e pelo tempo. De início não liguei, mas algo mudou por dentro. Descobri, nas horas seguintes a febre dos que se alimentam das ausências. O mundo estava pronto. Os pardais dormiam como os sonhadores dividindo os cantos das praças. O verão articulara-se com as cigarras e de certa forma movia a grande engrenagem coletiva que interligava todos os seres. Os mapas que sempre trouxe agora delineavam destinos. A palavra talhada em pétala era uma senha. Ao grande país a ser encontrado não se chegava em círculos. Bem-aventurados os que seguem a linha reta da própria vontade.

                             Francisco Orban

domingo, 23 de dezembro de 2012

TABULEIROS

                                       TABULEIROS           Francisco Orban



            Um homem, desses que moram a vida inteira em um casebre, sonhou que Deus lhe dizia que a vida poderia ser dotada de aventuras e prazeres inenarráveis. Quando acordou, ao contrário de Dante em Ravena, não teve a impressão de que algo infinito tinha se perdido e que a revelação era por demais grandiosa para a sua pequena condição de homem. Pelo contrário, cada palavra pronunciada tinha se entranhado na carne de seus afetos e, agora, engrandecido pelo que sabia, já não concebia morar em brejo de lamas eternas na caça de pequenos moluscos para a sua sobrevivência. - Deus sabe o que faz, intuiu consigo, e partiu  com seus andrajos para a cidade mais próxima para relatar aos demais homens a revelação divina e toda a euforia e encantamento que dela adveio. No lugarejo, entretanto, não encontrou ninguém que lhe desse atenção nem foi ouvido pelos transeuntes apressados que nem tomaram conhecimento de sua existência. Com o fim do dia, a noite caiu subitamente como um grande tabuleiro de trevas e o homem descobriu que apenas um bêbado o escutara confusamente e que continuava só e em um mundo sem amor e que a revelação gloriosa com que tinha sido contemplado apenas despertara nele uma dor absurda e mesclada de indignação e revolta. Então adormeceu e Deus, compadecido dele, lhe disse em sonho que esquecesse tudo o que ouvira. Quando acordou, sequer se lembrou de que algo infinitamente assombroso se perdera e assim viveu o resto de sua vida catando os moluscos na lama do brejo onde nascera, confortado e protegido pela impossibilidade de compreender a si e ao mundo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Balsa do tempo

   Balsa do tempo

Esta é a balsa do tempo
de uma terra sem presságios
da qual só guardei o vento
A balsa do tempo
fora das ramagens das horas
abarrotada de luas
com bússolas
que já não norteiam
os habitantes das ruas
Estes são os versos amarrotados
que ferem a noite
com seus signos e seus trocadilhos
rotos
Palavras
com que posso desarrumar
o mundo
                   Francisco Orban

Canoas

                                  CANOAS                 Francisco Orban

         As canoas que um dia nos levaram hoje são esses veleiros, que do mar alto nos assistem em terra, sem que saibamos de suas pretensões. 
         Como os veleiros, amei um dia uma mulher, quase menina, que  de mãos dadas comigo resolveu andar pelos garimpos silenciosos do coração. E em se tratando de corações de  adolescentes, quanta dor rege esses seres feitos de transição e fúria, pois somos, nessa idade, mamíferos desgarrados, provisoriamente salvos do caminhar da manada (para onde?) se não para a sua própria devastação.
         Posso assegurar que ela me amou, e que juntos singramos uma linha no horizonte, deixando nossa marca entre as flores de um país que nunca aconteceu. Pelo chão de areia e seguindo os costados do mar, pisamos os búzios do esquecimento que o mar expelia, também em sua viagem pontuada de veleiros. O que ficou dessas tardes, que eram tabuleiros de sol e ventania? O que ficou de seu corpo belo, mais belo ainda pelas paisagens que construí e visitei? Não fosse o gosto de seu hálito, nada teria retido. Pertence às cinzas de um carnaval suprimido esta fábula que virou encantação e por isso dói neste ônibus das cinco, onde cumpro o roteiro dos mesmos caminhos. Como os veleiros, alguns amores deixaram descuidadamente que o vento do tempo os abatesse, com sua crueldade e seu crestar de horas. Mas não foi esse o caso. Como os veleiros, deixamos distraidamente que o mundo nos tangesse para longe, quando para longe virou a única rota de nossos destinos. E o que guardo dela são seus grandes olhos, perplexos, infinitos.                                                                      



domingo, 16 de dezembro de 2012

SINGELO FINAL


Constatar que as mãos pareciam vagas foi a primeira lembrança, depois do acidente no mar, a misturar-se com diálogos embebidos em controvérsias inúteis. Tudo começara na busca de um verbo. Um empreendimento quase mecânico, se não ocultasse um sonho.
O verbo procurado deveria estar entre as duas últimas letras de um alfabeto proscrito, em decorrência de uma guerra ocorrida, no p...
enúltimo século que antecedeu nossa era. Contudo, uma lei que rege os jogos e preconiza a inutilidade dos atos falou mais alto. O verbo, dotado da infinita capacidade de realizar o pleno discernimento, fora conjugado por um guerreiro idoso, ferido em combate por flecha. Esse era o único registro desse vernáculo imemorial.
Alguns dos que viveram esse embate já esquecido, entre tantos, assistiram ao balbuciar do guerreiro agônico e tentaram decifrar-lhe a frase e a liturgia que a precedia. Mas dele só conseguiram escutar palavras, que lhes devolviam as lembranças do início do mundo: O verbo fora conjugado em um tempo verbal desconhecido e, além disso, sussurrado pela boca moribunda dos que se despedem das palavras.
Com os anos, nem dos rumores desta lenda, precariamente resgatada, ficou registro. Uma briga de irmãos em uma obscura aldeia, onde haveria mais tarde um país, alterou para sempre a conjugação e o sentido da palavra original. E por isso a história humana foi para sempre desfigurada, da mesma forma, como um cometa alterou acidentalmente sua rota há milhões de anos, possibilitando com isso a existência dos homens e dos livros. Agora, as palavras resgatavam seus verdadeiros contornos. O acidente no mar fora para aquele pescador a última etapa de seu percurso de mapeador das lembranças. Resignou-se doravante a ser o tutor de seus próprios esquecimentos. Abdicou então para sempre da idéia de perseguir o vernáculo, para o qual não tinha sido eleito. Feito isto, retirou-se para uma vida anônima e envelheceu triste, sem perceber que um menino nasceria, que conjugaria corretamente o verbo apagado da memória de seus ancestrais. E isso abriria uma nova idade de luz sobre o mundo, seguida de outra era de violência e trevas, e assim sucessivamente, até que bruscamente a odisséia humana seria interrompida por um cometa que acidentalmente alterou sua rota. Então seríamos conjugados pelo esquecimento e por um Deus que nunca vimos, mas que o guerreiro ferido viu nos estertores da morte, quando se negou a dizer o que vos adianto nesse singelo final. Ele apenas anunciou que acontecemos.
Francisco Orban

sábado, 3 de novembro de 2012

OS ANZÓIS DA NOITE

Querido Francisco
       " Seus Anzóis da noite me fisgaram pelo que possuem de poesia pura. Poesia, aliais, que você vem publicando aos poucos em belos livros como Cesto das Canções  com pássaros e Estaleiros de vento. Nesses Anzóis, adensam-se algumas constantes em seu trabalho : as imagens surpreendentes pela mistura que trazem de simplicidade e sofisticação; a fluidez atemporal dos temas aliada a uma técnica que jamais se sobrepõe aos tantos sentidos que tem o poema, "foz de toda palavra".
Neste livro como nos outros também vamos desaguar no mar e seus motivos, na metapoesia e em alguns longos poemas em prosa. Em todos eles, você, o sonhador sem retorno", um menino de rosto cansado vindo da migração de navios com gosto pela aventura. Merecedor de todo o reconhecimento por parte de seus pares e com uma palavra talhada em pétala, como senha.
       
                Suzana Vargas

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Poesia de Francisco Orban

 
A poesia de Francisco Orban transborda na intensidade de um de seus versos inaugurais: “palavra, minha única estrada”. Poeta que se permite transfigurar-se frente ao ensurdecedor e tantas vezes estéril espetáculo do mundo, ele anuncia suas auroras como um predestinado e é assim que também assume os passos de cantor da vida e seus tumultos, dos acertos e desacertos amorosos, do que há de glorioso e inglório nesta nossa estrada de pó e esperança. Quieto em sua oficina, sem alarde, ele aos poucos se afirma, e com justiça, entre os mais convictos e afinados líricos de sua geração e um dos poucos que encaram a poesia com generoso e claro espírito de missão.
 
André Seffrin

domingo, 3 de junho de 2012

Sob as estrelas

                 
         Vem, que eu quero arrancar a febre do teu desejo e te dar com uma das mãos um rio e com a outra um beijo. Vem,que eu quero te oferecer o caminho dos vilarejos de vento e te levar para os navios do amanhã e transformar a tua dor em algodão doce. Pois aqui, onde estou sob a noite desabada, só prossigo, porque vou no lombo dos poemas que passam por estradas que vão dar no caminho do sol. Fica comigo numa noite de estrelas e águas, onde eu recolha as folhas secas dos poemas e com elas faça um leito para ti. Uma migração de estrelas azuis pousará em teu rosto. Uma multidão de pequenos seres vindos dos confins da terra fará vigília em torno de nós e assistirá nascer uma nova serenidade em teu rosto.


                                   Francisco Orban