Nunca mais voltei à infância
e sua comunhão com as águas
onde me plantava para ouvir
o ventre da madrugada
Guardei as mãos de meu pai
que me levavam para circos
Depois não mais as achei
nem os circos que faziam
me sentir menino e rei
A vida é um rio sem hora
com seus ventos e estrelas
mas sempre levamos dela
o que dela se desbota
A vida é uma cadeia
da qual só se sai sem volta
mas sempre guardamos dela
o que dela incendeia
Saí do destino do tempo
como um menino de vento
mas o sentido do tempo
não me foi dado por horas
Mas o sentido do tempo
com seu absinto lento
só me chegou muito tarde
pois já não pisava o chão
mas as terras da poesia
com sua música e pão
Viver me fez me cumprir
pois fui escultor de palavras
Da infância trouxe o visgo
sem seu sudário sem vinco
e a levo para toda parte
em minha memória de circos
Assim como as mãos de meu pai
que foi alfaiate de almas
que me deu um terno cinza
com mangas de madrugadas
mais Carlitos que bom moço
mais menino que senhor
mais sonhador que doutor
Mas esse terno me cabe
e com ele ganho estradas
que não são feitas de pedras
mas da voragem de asas
Do livro "Estaleiros de vento" de Francisco Orban
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